segunda-feira, 30 de julho de 2012

IMITADORES - Giovanni Papini



           Rapsódia

«Os homens não descendem dos macacos, mas desenvolvem todos os esforços para o fazer crer...Toda a vida é um mosaico de plágios. (...) A maioria imita por preguiça, para se poupar o trabalho de procurar de inventar, ou por prudência, que aconselha os caminhos percorridos e as experiências coroadas de êxito...Se viver é distinguir-se, o orgulhoso deveria providenciar para não se parecer com ninguém. Mas, a inveja, sob a sonante designação da emulação, trai-os:...o génio, conquanto não possa deixar, por vezes, de imitar como todos, tem esse nome enquanto extrai da substância nativa o que pretende: é aquele que tem coragem de rejeitar os mestres, proceder ao contrário do que a maioria diz e  faz, de matar em si a natureza ovina e traçar-se, em novas regiões, caminhos que ninguém percorreu antes dele. (...) Neste renegar de si e querer ser cópia de outrem reside porventura o sentido  de uma vergonha obscura...[A] imitação... pressupõe sempre a superioridade do modelo...O mal reside em que todos, até os maiores, dão mais exemplos tristes que óptimos, e os próprios imitadores, sendo também homens e dos menos vigorosos, estão mais sujeitos a imitar o mal que o bem.(...) Afirmar o contrário de outra pessoa equivale a segui-la - quanto mais não seja, na radicalidade do estilo.(...) Quando dois homens conversam, o mais fraco é sempre levado a imitar o outro, mesmo no tom de voz e nas atitudes, acabando por exprimir pensamentos opostos aos seus ou aos que manifestaria se falasse com outro. Qualquer de nós, se não é forte e vigilante, tem tantas maneiras de ser e de falar quantas as pessoas com as quais se encontra. A personalidade absoluta é tão rara, que se costuma desprezar como loucura ou venerar como génio. E a mania de imitar não se verifica apenas nos indivíduos singulares - na realidade, domina ainda mais facilmente os homens reunidos. A adição de muitas inteligências produz, na maioria dos casos, uma babuinada. Toda a casta experimenta prazer em macaquear os costumes da outra (...) A vaidade dos povos não os salva de se copiarem mutuamente - basta que uma nação seja, ou pareça, mais rica e preponderante, para que todas as outras adoptem as suas modas, o seu sistema de vida e até a sua língua e hábitos mais ridículos e repugnantes. Houve uma época em que todo o Ocidente se coloria à grega, no Renascimento à italiana e mais tarde à francesa e à inglesa. Hoje, somos todos imitadores da América.(...) [A] vida tornou-se cada vez mais uma imensa litania de repetição...Somos uma raça de copiadores - de nós mesmos, dos vivos e dos mortos. A pobreza de imaginação e o medo do novo tornam-nos praticantes do já visto e já feito. Se a moda ajuda - e impera em tudo - , vemos de súbito uma multidão trajada toda com o mesmo tecido cosido da mesma maneira, que se precipita atrás dos mesmos ídolos ou prazeres e grita em coro as mesmas palavras. Para ser em tudo e para tudo como os outros, recorre-se à violência, contra o nosso próprio ser, diz-se aquilo que não se pensa, finge-se sentir o que não se sente, pratica-se o mal ainda que a sua própria natureza se repugne ou haja risco de vida. Tudo se copia: da maneira de pensar à de andar; o estilo do amor como o do penteado. Quem não papagueia as imbecilidades correntes é inimigo da pátria ou, pelo menos, excêntrico ou bárbaro...Julgamos falar com duas pessoas diferentes e reparamos de repente que nos dirigimos à mesma alma, se é permitido o termo, dividida por dois corpos quase iguais.(...) São muito raros aqueles que morrem tendo possuído verdadeiramente a sua alma.(...) [Q]uase ninguém se atreve a ser o que é e todos querem ser outros...[U]m desenho tosco efectuado numa parede vale sempre mais do que uma cópia da Sibila de Miguel Ângelo.(...) Mas o homem não pode deixar de copiar e não faz senão copiar: é um fabricante de duplicados. Porque quer ter uma réplica do mundo, reduzida às proporções humanas e aos seus gostos. (...) Toda a arte é, pelo menos para metade, cópia: cada um que desenha ou pinta imita alguma parte do mundo...As casas são cópias aperfeiçoadas das grutas; as colunas cópias lisonjeiras das árvores; a própria música inspira-se nos sons da Natureza e nos rumores da vida.(...) Metade da magia provém da imitação, e a ciência, para explorar as forças naturais, tem de imitar a Natureza: criar lagos e cascatas para aproveitar a energia existente na água; escavar canais que são cópias de rios; reproduzir as asas das aves para as suas máquinas voadoras. Se o Demónio é simia Dei, nós somos Simiae mundi.»

Uma imagem vale mais que 1000 palavras

O título não é original mas sobre originalidade remeto para o texto «Imitadores» in Relatório sobre os Homens de Giovanni Papini, pp. 98-102.

A cidade eterna
Observo esta imagem. Quantas ordens existem nela que sejam possíveis de encontrar ? Não temos mente para tanto detalhe mas pelo menos podemos ter a grande alegria de ter uma. A polissemia da imagem é o que leva os lógicos e os espíritos mais abstractos a preferirem não trabalhar com este elemento tão maleável e viscoso. Na realidade, hoje aprendi mais uma coisa: as imagens mascaram mais do que revelam. Deve ser também por isso que pressinto em quem usa e abusa delas uma forma de resposta catártica a sentimentos de vivência opressiva. De facto, as imagens podem ser tão avassaladoras (overwhelming), que nem é preciso ultrapassar a unidade para o compreender e sentir. Também é óbvio que as infinitas formas e a velocidade com que são produzidas, ou criadas, ou simplesmente divulgadas, não deixam tempo para meditar nelas. Os tempos actuais, não são para isso. Meditar é algo primevo, esquisito,  abstruso, bárbaro, anormal, louco. Meditar para quê ? Poderia responder-se facilmente: para começar a aprender a ver.  Para descobrir-lhes as inúmeras ordens significativas que elas possuem. Para compreender melhor como se pode ser manipulado por elas - tanto influenciado a pensar como a sentir - et coetera. Mas é óbvio que isso não interessa. Nunca interessará. Aposta-se no comércio, nos mercados, no produzir para vender e comprar para consumir. Por isso, quanto mais alucinantes e psicadélicas se tornarem as montras e mostruários, os catálogos e os portefólios, tudo repleto de cores, formas, luzinhas de néon cintilantes como estrelas do firmamento vizinhas, menos se pensa e mais se reage irracionalmente aos estímulos, chegando por vezes a parecer que se vive apenas das colheitas (harvest)  - sem sequer se semear - numa alegria orgíaca de permanente festividade. Existem por isso, para os homens,  muito mais do que os desertos para lhes provocar miragens.
Aceitem o repto e leiam o texto de Papini.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Em diálogo com o mundo

Passavam alguns minutos das três horas da manhã. Um grupo de pessoas, de que não interessa designar as idades, percorria as ruas da vila onde habito, gritando como se uivasse à Lua. Perguntou-me a minha companheira, em que estás a pensar ? Respondi-lhe que em muitas coisas. Revela-me, solicitou. Estava a pensar em manter o silêncio. Porquê, insistiu ela, para que lhe explicasse. Deus já os ouviu, parece-me uma censura minha. Seria diferente se pensasse que Deus os escuta sempre, pois essa é a verdade de que provavelmente andam arredados, por esquecimento. Mas, também, isto que penso é desnecessário. Estas manifestações ruidosas, dispensam os meus comentários. E no entanto, não deixamos de reagir e de pensar sobre tudo o que nos rodeia. O mais absurdo é, no entanto, ter tido estes pensamentos, sendo ateu, como tu sabes. Sim, compreendo. Também a mim me ocorreram pensamentos, mas não de censura. Pensava na alegria que os move. Tens a certeza de que era alegria ? Não. Não posso ter. Mas prefiro sempre olhar positivamente para as coisas. Talvez, a tua atitude seja mais razoável do que a minha, ao pensares desse modo. No entanto, nem sempre somos nós que escolhemos os nossos pensamentos. Sim, entendo-te. Poderias mudar de atitude se quisesses. Também quanto a isso, sou céptico. Não creio poder ver-me livre tão facilmente de atitudes mentais que fui construindo ao longo de tantos anos. Força do hábito, necessidade, objectivos, quiçá ?... Não é fácil alterar disposições com raízes tão longínquas e profundas. Sim, mas nunca é tarde para recomeçar e as mudanças, não surgem de um dia para o outro. Dizes bem, dizes bem. teria que ter tido outra vida ou passar a ter outra, mas não me parece que venha a ter tempo para tal. Concentro-me nas disposições de que sou portador e tento apenas limar-lhes as arestas, ou, se preferires, puxar-lhes de vez em quando as orelhas. Findas estas palavras, a minha companheira sorriu-se e permanecemos os dois juntos, abraçados em silêncio a admirar com perplexidade as estrelas que cintilavam sobre as nossas vidas.

Pontos de Vista

- Poeta é aquele que a alma quer e não aquele que quer ter alma.
- Estamos mais próximos da História do que ela está para nós.
- Tudo passa, até o murmúrio invisível das entranhas se nos escapa, enquanto música.
- As nossas palavras são o fio invisível que nos une, separa e confunde.
- Se apenas nos víssemos, sentíssemos e não falássemos, ainda
assim, seríamos comunicáveis.

domingo, 13 de maio de 2012

Informados ?

«Estar-se informado» é uma das expressões mais repetidas nos dias de hoje, mas é simultaneamente uma das afirmações mais vagas e vazias que o uso social e cultural da linguagem têm produzido. Em primeiro lugar poderíamos começar por questionar em que consiste «a informação» ? Em segundo lugar colocaríamos a questão de saber em que consiste «estar-se informado» ?
Desde já, apresento aqui a minha tese sobre esta matéria, que é a seguinte: «ninguém está de facto informado». O uso e o raciocínio que levam a este tipo de asserções do estilo «estou informado», «estar-se informado» são quase sempre vagas e falaciosas.
O condutor que memorizou o código da estrada e passou no exame parece estar informado sobre as leis que regem a sua conduta enquanto circula com o seu veículo ou a pé pelas vias apropriadas. Será ? Memorizar é possuir informação ? Sinceramente, questiono. Não basta a memória, é preciso algo mais, compreender o significado do que nos é transmitido e saber aplicá-lo a certos usos, como neste caso específico. Memória sem significado é algo completamente despropositado.
Podemos ter acesso a todo o tipo de informação disponível. Tal situação não nos torna sequer nem mais nem menos informados. O acesso não define o que constitui informação. estar de posse de dados ou seja de fragmentos ou elementos básicos comunicacionais não constitui sequer informação. A posse também não define «informação». Até aqui, todo este discurso parece óbvio, trivial e maçador. Todos diríamos que tudo isto é claro e distinto. Lamentavelmente, a urgência de concluir, como se de um silogismo se tratasse, trai-nos muitas vezes, precipita-nos...
Se alguém está informado, está informado sobre o quê ? Mesmo aquele que domina  muitos significados não se encontra de posse de todas as possibilidades que a eles dizem respeito (os significados). É sempre um portador da sua própria interpretação, um veículo das suas limitações. Aliás, quando significa intencionalmente ou reinsere significados na sua estrutura de sentido, já está a elaborar (tratar informação) de acordo com a sua autobiografia que não se reduz ao seu subjectivismo, mas que nele se prolonga e encontra ressonância. Por outro lado,  os significados emergem muitas vezes de novas circunstâncias contextuais, não se encontrando disponíveis por isso no imediato, ao alcance de qualquer vontade do sujeito. Mesmo quando tratamos qualquer informação já estamos a utilizar o nosso próprio contexto que se insere num contexto mais amplo de significações. O objectivismo é igualmente um subjectivismo histórico e autobiográfico. Seguem-se, normas, quadros, modelos, regras valores e o sentido da própria pesquisa ou tenta-se reintegrar as descobertas, os acasos, as circunstâncias, os acidentes nesse contexto que alguns dizem que constituem «o entendimento» - juízo, história, sentido. Se a interpretação não é unânime o que significará «estar-se informado», «esclarecido» ? Fala-se de conhecimento, mas essa é outra vertente que não iremos aqui aprofundar. Possuir informação parece ser um estado em que possuindo dados subjectivo/objectivos, o sujeito lhes confere um sentido próprio ou próprio tendente ao universal a que aspira, inserindo-os num quadro que define esses domínios.
Deste modo se compreendem sempre as limitações subjacentes ao que significa «estar-se informado». Ou se está informado de modo particular - e o particular também não se configura como totalidade perfeitamente diferenciada do universal - ou se tende para algo que tende para a objectividade universal - também ela fruto de certas formas de expressão cultural entendidas como «visões do mundo» colectivas. O estabelecido, não é necessariamente toda a informação nem sequer a posse de todos os dados. O carácter infinito da «informação» não depende apenas dos «dados» as unidades básicas num sistema informacional, mas também das leituras e interpretações literais, criativas e derivantes ao nível individual e colectivo, que os estabelecem e relacionam acrescentando novos sentidos ou reafirmando os prévios, como tautologias históricas.
(texto a continuar...)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Balada dos Peixes


Peixe livre pode ir à rede mas sempre escapa.
O apanhado, debate-se, mas tem os dias calculados.
Todo o outro peixe é confecionado ou congelado.
Ou então, simplesmente abandonado e apodrece.
De todos os homens imaginemos alguns pescadores,
Lançando redes ao Mar. E de outros, apenas peixes,
Nadando sem se apoquentar.
Podíamos considerá-los a todos peixes,
Devorando-se vivos uns aos outros…
Mas, para construir uma rede,
Não bastaria possuir apenas escamas ou barbatanas…
Tal como para construir um barco, não bastaria apenas
Ter boa madeira e muita força de braço.
Será por isso que homem é homem
E peixe é peixe ?
A vida tece-se por si,  enredando-nos nas suas próprias malhas.
E nós aprendemos a fiar e a tecer imitando-a
Nos seus motivos e entrelaçados
Como se fossemos aprendizes de pescadores.

[noético- 03/01/2012]

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Emparedados



1/4 para as  7. Esqueci-me de tirar os agrafes do forno. O cheiro a clips esturricados invadiu-me as narinas...Um ano novo começa...Onde está a novidade ? Dava tudo para que não me vissem nem me falassem mas para permanecer no meio dessa massa anónima de cujo cheiro quimérico a transpiração sinto os passos... Eu sou o maior filho da mãe que há por estas bandas. Seria ridículo até nisso julgar-me herói. Há sempre um caso mais desesperado e mais estranho que o meu. O que somos ? O que pretendemos ser ? Aonde queremos chegar ? Uma coisa parece certa, somos pouco amigos do animal que sentimos em nós. Somos...Uma súmula indiferenciada de identidades, uma rábula de quimeras, um efervescer simbólico com pretensões à eternidade. Chegar à vida não é simples, é-nos dado, por quem nos procriou. Chegar à morte não é simples, para ela somos guiados, como robôs naturais. O sonho é ser deus, a fraude é o sonho intangível, o facto o resto visível de toda esta loucura, normalíssima e sereníssima, que nada tem de estranheza ao fim de uns breves anos da nossa permanência. Bebamos o elixir das almas belas, o vinho daqueles que não se refinam nas sarjetas. Não basta ser, é preciso Ser, Grande, Virtuoso, Belo, Sucedido ou, uma outra coisa qualquer que brilhe e que afugente a poeira que cobre finalmente o bronze dos anos. Quebrar um silêncio é apenas uma outra subtil forma de emparedar as palavras. Um filtro de fixação de CO2 que se evade pela nossa boca, como um peixe debatendo-se retirado de um anzol. Tudo o que vejo, relembro, rememoro como vivência, faz-me sentir o maior filho da desgraça à face do Planeta. Foi assim que eu fui ? Quem me ensinou a ser assim ? Porque me tornei neste ser assim e não numa maçã pendurada numa macieira ? Responderia...Fui andando com os amigos. Fui sendo por aposta em sortes. Não tinha nervo para toda aquela paródia da disciplina macaca, a mesma que,  transforma estátuas em corolários de bênçãos pré-alinhavadas.  Desgraça...Não nasci para a costura...Mas, nasce-se para alguma coisa, como se o futuro já tivesse traçado ? Será que o Destino consegue invadir os terrenos da História, como um rio que corre sobre a terra ? Seremos mero aluvião do tempo ? Bolhas!...Façamos bolhas... Guardemos a "interrogação" como a única chave do nosso mundo. As bolhas ?...Produto que a si se produz ? Quiçá?
[noético - 16/12/2011]

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Emile Cioran – O Livro dos Logros - O Estado Musical


Eu sinto que perco matéria, que as minhas resistências físicas decaem e que me dissolvo na harmonia e na ascensão de melodias interiores. Uma sensação difusa, um sentimento inefável reduzem-me a uma soma indeterminada de vibrações, de ressonâncias íntimas e de sonoridades cativantes. Tudo o que acreditei singular em mim, isolado na solidão material, fixada numa consistência física e determinada por uma estrutura rígida, parece ter-se resolvido num ritmo de sedutora fascinação e de uma esquiva fluidez. Como posso eu descrever com palavras o modo como as melodias se implantam nesse que é o meu corpo a vibrar integrado na vibração universal, evoluindo em sinuosidades fascinantes cuja irrealidade aérea me transporta? Nos momentos de musicalidade interior, perco o gosto pelos materiais pesados, perco a minha substância mineral, essa petrificação que me liga a uma fatalidade cósmica, e corro para o espaço, repleto de miragens, esquecido da sua ilusão, e de sonhos, indiferente à sua irrealidade. Ninguém compreenderá o sortilégio irresistível das melodias interiores, ninguém sentirá a exaltação e beatitude se não está satisfeito com esta irrealidade e não amar mais o sonho que a evidência. O estado musical não é uma ilusão porque nenhuma ilusão pode dar uma garantia de tal magnitude, nenhuma sensação orgânica absoluta de vida incomparável significativa por si mesma e expressiva na sua essência. Nestes momentos, quando nós ressoamos no espaço e em que o espaço ressoa em nós, nestes momentos de torrente sonora, de possessão integral do mundo, não posso deixar de me perguntar porque não sou o universo. Ninguém terá provado com uma louca e incomparável intensidade o sentimento musical da existência, se não for tomado pelo desejo desta exclusividade absoluta, se não fizer prova de um imperialismo metafísico irremediável desejando abolir as fronteiras  que separam o mundo do eu. O estado musical associa no indivíduo o egoísmo absoluto com a absoluta generosidade. Apenas se quer ser a si, não por orgulho mesquinho mas por vontade suprema de unidade, por um desejo de romper as barreiras da individualidade; não para fazer desaparecer o indivíduo mas as condições exigentes impostas pela existência do mundo. Quem já não sentiu o desaparecimento do mundo, como realidade limitativa, objectiva e distinta, quem já não teve a sensação de absorver o mundo nos seus impulsos musicais, nas suas trepidações e nas suas vibrações, esse jamais compreenderá a significação desta experiência onde tudo se reduz a uma universalidade sonora, continua, ascensional, tendendo para as alturas num caos aprazível. E o que é o estado musical senão um doce caos onde as vertigens são beatitudes e as ondulações êxtases ?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A Morte (Homenagem a Edgar Morin)

Hoje a Morte falou com sonâmbula loucura
Desse êco em que gravou nosso ser sem figura.
Olhou-se num espelho nefasto e embebedou-se num delírio de crente
Fitou esse olhar anónimo de um feto moribundo gerado em águas do seu próprio mundo...
E silenciou-se no escuro tumular, no elo simbiótico de uma esposa infiel com medo nevrótico do extâse lunar...Esse anjo imortal tornou-se tabú, um sonho amoral, um Eu e um Tu.
O mito perdura na dor que vincula o devir inseguro à inscrição tumular!

Ao Passar por ti

Vi-te passar
Como uma estátua de ébano
E o teu espectro
Prendeu-me a alma
Depois...
Cativo, do teu ingénuo encanto
Fui-te seguindo,
Até que o vulto meu precedente,
Desapareceu no céu deserto...
O futuro é a gravidez dum sonho por nascer.
O presente, um presépio de adulação ao mito da realidade
O passado repousa em descanso num cemitério de liberdade.

O Sal da Vida

Gosto de me perder no tempo, de me ver imaginar por dentro. De descobrir um ritual violento. Gosto de amargar a vida, de saudá-la com rasgada ira, de deitar muito sal sobre essa ferida. Faço o tempo para habitar o espaço, sonho mãos para vergarem aço e caminho, por onde já passo. Faço o sono com que adormeço pois, cada noite tem o seu preço, e espero a luz que foi começo...

A Gente

A gente cresce saudável e contente
Procura enfim, ser consciente
Abrir os braços, olhar em volta
Ser alguém no meio da gente...
A gente quere-se amar
Enfim procura-se encontrar
E nesse rumo que segue em frente
A gente segue a caminhar
Em busca de algo que alimente
Esse motor que nos faz andar.
A gente cresce a confiar
A gente julga vir a saber pensar
A gente sonha poder amar
Mas, afinal de tudo
Mal a gente desfaz o engano
Torna-se de novo a enganar.
Não há razão para ser assim
Tudo é impossível de alcançar
Por isso, não pode ser assim, tão ruim
Que não tenhamos podido adivinhar.

O Grito

Grito.
Completando as palavras
que já nada dizem
da parte inacessível de mim.

Grito.
Fala assim
A minha parte concluída
E toda a outra
Que se sente  incompleta.

Grito.
Não é revolta nem desespero
Mas a solidão da voz
Que irrompe através da interior fala.

Se grito
É porque as palavras já não se articulam
Para expressar o sentido que escapa à língua
Interioridade comunicativa que explode como fogo vulcânico

Grito.
Já não é resistência
Mas sim, invalidez,
Precariedade,
Incapacidade,
Debilidade...

Amostra desta sensibilidade
Que se vai petrificando
No silêncio ficando calada.
A capacidade que se sente esgotada
Inalterável, inampliada
Excepto pelo Grito, pelo Grunhido
Que é a minha fala no Mundo!

Hoje, Ser

Sejamos nós os Surdos.
Sejamos nós os Loucos.
Sejamos nós os Suicidas.
Sejamos nós os Humanos.
Sejamos nós apenas
Aquilo em que Acreditamos!
Sejamos nós, cada um de Nós, esse Maravilhoso Acto
Da Criação que é Ser!
Autênticos!
Plenos!
Serenos!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Razão e os Ratios

Alguém nos procura por termos cometido um crime afim de nos condenar à morte. Procuramos asilo junto de um amigo. Este concede-nos abrigo. Os nossos perseguidores batem à porta do nosso hospedeiro e interrogam-no se sabe onde nos encontramos. Duas questões se colocam inicialmente, ou o nosso amigo acolheu-nos sabendo que tinhamos praticado um crime ou então fê-lo por simples amizade e em absoluta ignorância dos factos. Neste último caso, não termos sido honestos para com ele. Em qualquer dos casos o que significa ser honesto (verdadeiro) para a o nosso amigo hospedeiro quando instado a responder aos nossos perseguidores ? Se o hospedeiro nos deu abrigo com conhecimento dos factos deverá ele mentir aos nossos perseguidores mantendo a sua honestidade para connosco ? Se, pelo contrário nos abrigou, sentindo-se traído na confiança que depositava em nós, por lhe termos ocultado os factos, deverá denunciar-nos ?  No primeiro caso ele poderá mentir aos nossos perseguidores sendo verdadeiro quanto à amizade e confiança que depositou em nós e mantendo a sua palavra para connosco. Mas, no caso contrário, em que ele nos abrigou sem que lhe tenhamos contado os factos ? Factores a ponderar; ele é nosso amigo;não fomos honestos com ele; não confiamos o suficiente nele para lhe contar. Poderá ele não querer ser conivente com um crime por nós praticado, denunciando-nos ? Pesará para ele mais a obediência cega à Lei ou a fraternidade da sua Amizade por nós apesar de esta não ser perfeita ? Pesará para ele mais o crime que nós cometemos ou o crime que irá ser cometido pelos nossos perseguidores em nome da Lei ? Primeiro caso. Não nos denuncia. Afinal, uma Lei que condena um crime praticando outro, nem merece esse desígnio. Em segundo lugar, não existe nenhuma Lei que mereça a amizade de ninguém, pois a amizade é algo que se estabelece entre pessoas, que demora o seu tempo a cimentar-se e que, apesar de possuir muitas falhas é quase inestimável. Por outro lado, a amizade não se estabelece entre pessoas e Leis abstractas. Mas vejamos o caso inverso. O nosso amigo hospedeiro, denuncia-nos. Cumpriu o seu dever perante a Lei e perante si disse a verdade. Traiu contudo os amigos. Terá sido honesto (verdadeiro) para com eles ? Não pactuou com o crime pelos seus amigos cometido, mas pactuou com o crime que irá ser cometido pelos agentes da Lei (pena de morte). Terá aqui ele sido honesto, verdadeiro ? Duvidamos! Não é nenhuma Lei que nos humaniza mas apenas a humanidade que pode humanizar a Lei. Eis o que vos deixo para reflectirem.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Palavra o Pensamento e o Tempo

Somos incrivelmente simples. Uma palavra, uma partitura e um só reger. O que nos torna humanos é a espuma dos dias.Alguns dirão que há que diferenciar o todo das partes. Eu direi, não conheço o todo para o diferenciar das partes. Só conheço partes e, cada uma delas é um todo. Uma mónada de realidade completa. Não se bebe toda a água. Não se come todo o pão. Não se polui todo o Universo. Em suma, vivemos como um fragmento. Dizemos que a obra é a vida mas, também dizemos que, a vida é a obra. Contudo, a vida não é nada disso. A experiência não é uma obra, nem sequer é um fruto de unificação, nem um cumulativo ou fusão de desperdícios, aqui e acolá, utilizados. A experiência é algo bem mais complexo do que pensava Kant. Ela, nem se resume a um sujeito e até chega a ser significativa sem qualquer entendimento. O Pensamento é uma espécie de bomba de «neurónios» que atravessa tudo, deixando tudo intacto, com a excepção, de quando se transpõe para um fazer. Aí mata tudo o que é, matando-se a si próprio na realização. Pensar que o pensamento é apenas uma instrumento útil é redutor, pretensioso e abusivo. Diria, que o pensamento é o maior produtor de inutilidades que existe no Universo e, talvez, a sua maior inutilidade seja produzir-se a si próprio. Ou seja, o Pensamento é simultaneamente o seu criador e o seu criado.  (É a Eternidade).Talvez alguns ingénuos ainda acreditem em Deus, por desconhecimento, por desentendimento, pois é esta desmesura do pensamento que os leva a hipostasiar e a entrar em alucinação real e virtual. A origem da cosmética e do folclore. O pensamento, apesar de ser apenas uma minúscula partícula do universo é, contudo, tudo quanto nos mantém ocupados e, sobretudo, preocupados. Esta preocupação é uma atenção obsessiva. Fora do pensamento só com o pensamento pensamos a efemeridade do tempo. A Palavra é um tempo. Uma frase é uma composição de tempos. O Pensamento é a Eternidade. O relógio está instaurado. O tempo não tem por isso, qualquer significado. O mesmo se poderá dizer do Espaço que é o que medeia entre duas palavras ou se quiserem entre duas letras ou sons (no sentido do mensurável) . Espaço é tempo de intermeio numa pauta musical.

domingo, 10 de abril de 2011

Poema das Rosas

A quem direi de meu pesar
Se o a vós não for dizer *
Jurei amor sem nunca o ter
Que mais terei eu a perder

Amor mui grande quis achar 
Nessa  demanda do meu ser 
Quis eu por ti bem querer

Rosas são rosas que mais podem ser
Trovas são obras de muito merecer
Ai de mim que não cuidei

Não senti e não escutei


Rosas são obras de mais merecer
Que muitas glosas não fazem esquecer
[Rosas sem espinhos não fazem crescer]
Eis o fim de semear
Noutro ver  e  acreditar


Vi-te nascer no meu olhar
Prezai senhora meu dizer
Desde esse dia em que nasci
Flor tão bela eu  jamais vi

E desejar sem bem querer
Se alguém ousar e não se ater
Seu mal trará

Rosas são rosas que mais podem ser

Trovas são obras de muito merecer

Ai de mim que não cuidei 
Não senti e não escutei

Rosas são obras de mais merecer
Que muitas glosas não fazem esquecer
[Rosas sem espinhos não fazem crescer]
Eis o fim de semear
Noutro ver  e  acreditar

Mais eu não posso   enganar
Meu coração, que me enganou
Por quanto me fez desejar
A quem nunca me desejou **

O coração tem razões que a própria razão desconhece

A frase de título foi proferida por Pascal, mas já Camões também assim o entendia na sua Lírica. Junto-me a estes homens neste seu pensamento. De facto, parece-me uma chamada de atenção para o desprezo a que um mundo tão voltado para a tecnologia e para um saber racional vota essa parte de nós próprios.
Os sentimentos não têm uma gramática tão bem articulada como um pensamento que se socorre da língua e da sua organização. Parece-me que adjectivar os sentimentos como desprovidos de qualquer forma de conhecimento é redutor e, sobretudo, uma forma quase primitiva de negar a hipótese de a própria razão se transcender. Quero com isto dizer que, uma razão que diante das dificuldades se desmobiliza, só pode ser uma razão fraca e que em nada ajuda a dignificar o «humano». A ideia de que apenas a ciência, o conhecimento são formas dignas de saber, parece-me uma ideia mesquinha, ou que enferma da mesma mesquinhez que ela própria  condena autodesignando-se como «única». A soberba nunca conduziu a boas respostas na vida. Por isso, a humildade, não deve ser apenas aflorada superficialmente através do reconhecimento das limitações próprias. A humildade tem de ser praticada, sentida, vivida, experimentada e, com ela, os nossos horizontes abrir-se-ão para uma visão mais ampla, mais vasta, mais larga, mais transcendental. Por que isto, de haver apenas fórmulas exclusivas e seguras de conhecer e convém aqui referir a ânsia cartesiana a que por vezes a nossa vontade de conhecer nos conduz, ultrapassando o nosso entendimento, tem as suas consequências. Não, porém, para nos resignarmos ao desconhecimento. Não, também, para nos deixar-mos conduzir pela imaginação desenfreada sem limites. Como referia um antigo sábio, nascido em Estagira (Aristóteles), no termo-médio é que mora a virtude. E o equilíbrio é sempre das coisas mais difíceis de obter. No entanto, também não nos podemos apenas pautar pela procura de equilíbrios e pela segurança e conforto que isso acarreta. Ousar é preciso. Transcender é preciso. Errar não é erro, é o mais humano que se possa considerar. Se não, vejamos... Se a ideia de perfeição como refere Descartes, nos tivesse sido implantada à nascença por um Ser Divino, então, todos deveríamos ter a mesma ideia de perfeição e ninguém a poderia aperfeiçoar. Mas mesmo que tivessemos diferentes ideias de perfeição, cada um seguiria apenas a sua perfeição e, em conjunto, apenas procurariamos aliados que se nos tornassem favoráveis à prossecução do nosso próprio aperfeiçoamento. Esse rumo teria pelo menos um aspecto muito nefasto, o de nos levar a ignorar tudo o que não contribuisse para a nossa perfeição.Ou seja, apenas contribuiria para nos tornar «vesgos» ou «cegos de uma vista». Afinal, entender a perfeição segundo um só paradigma seria apenas o aperfeiçoamento de mais uma imperfeição, no meu modesto entender. Mas voltemos ao sentimento. O que nos é doado não é por nós criado. Ora, se não o podemos criar, tal tarefa está-nos vedada. Existem três consequências que podemos resumir sucintamente quanto a isto. Primeiro, existem limites ao que podemos criar, porque algo é criado sem ser por nós. Segundo, e decorrente da primeira, se algo é criado sem ser por nós, então, temos algo que nos é dado para ser partilhado também por nós e que deve ser preservado, respeitado e porque não melhorado? Terceiro, compreendemos que o acto de criar não é um acto desligado, avulso, solitário, mas antes, e até talvez, solidário, pois o que se cria, tal como uma obra de arte passa a fazer parte do nosso mundo, que é de todos, humanos e não-humanos. Por tudo isto, entendemos  que o acto de criar não deve ser nunca governado pela irresponsabilidade e pela falsa inocência que substima e até nem considera qualquer consequência. No entanto, saber que não está tudo criado confere-nos esperança, abre-nos rumos possíveis, liberta-nos mas, expôe-nos igualmente, responsabiliza-nos tranformando-nos em sujeitos da obra e a ela para sempre biograficamente ligados. Mas que tem tudo isto a ver com o sentimento ? O sentimento é uma área pouco explorada, pouco conhecida, sobretudo das ciências. Parafraseando Kant ao dizer que intuir sem conceitos seria uma cegueira e que entender sem intuir seria vazio, diremos que, uma razão que não seja sentida ou que nem sequer se debruce sobre o sentir é vazia e que o sentimento sem se confrontar com a razão será puramente cego. Ao focar estes dois extremos apercebemo-nos que o equilíbrio é coisa frágil, dinâmica e inacabada, como tudo o que diz respeito ao «humano». Porém, no aprofundar os nossos sentimentos, coisa que só uma razão conduzida com humildade executa, a razão pode descobrir «caminhos» para se transcender no sentido da sua própria razoabilidade. Afinal de tudo, conhece-se também o mundo sentindo e não apenas reflectindo, pois muitas vezes, aquilo sobre o qual se reflecte é fruto de um sentimento. Veja-se o caso dos efeitos nefastos de uma guerra entre irmãos. Só concebemos, reflectimos sobre essas consequências porque nos provocam um sentimento de desgraça, de catástrofe produzida - bem diferente da provocada por um tsunami -, de ignorância por não termos tido medida, etc. Mas também sentimos a priori o que pensamos e o que deduzimos e o que induzimos. Sem sentir, não teriamos esperança, caminho para caminhar, liberdade e um desconhecido enorme por todos os lados que nos abre um horizonte amplo de possibilidades e de problemas. Sem dor, certamente não andaríamos despertos. Não teríamos certamente nem sequer consciência, essa entidade quase esquizofrénica que nos é conatural. Senti, pensai, vivei!