«Vivemos no sonho de alcançar a completude, atingir o máximo, querer,
obter e utlrapassar tudo. Eis, uma verdadeira demência da cultura que
ela não trata por que não se espelha nem se retrata a si própria. E nós,
peixes que nadamos no seu aquário nem vemos que existem mais rios e
muitos outros mares para além da aparente transparência do vidro que nos
separa do resto do mundo. Entretanto vamos-nos queixando da maçã
tocada, da verdura murcha e encontrando sempre algo ou alguém
a quem expiar (atribuir culpa), cegos que permanecemos, nadando nas
nossas habituais águas. Esta visão tem suas virtudes. É preciso, por
vezes, saltar o muro. Mas o caminho não é só feito de muralhas. Quando
caminhamos pela estepe o que nos parece fazer falta são tijolos, torres,
arranha-céus, obstáculos. Quando caminhamos na montanha só desejamos
planura. Quando amamos queremos amar tudo, dizer tudo. Perdemos a noção
do tempo. Sabe bem, por vezes...Caminhar em desertos sem
horizontes...Mas nem há palavras, nem actos, nem tempo que chegue a
tamanha e hercúlea tarefa ou ambição. Talvez fosse melhor tomar mais
atenção às pequenas irregularidades, imperfeições, detalhes que podemos
apreciar a cada instante. Talvez assim nos conseguissemos relacionar de
forma mais humana, sem apontar falhas, antes, compreendendo-as e
respeitando-as, pois, são de facto, a coisa mais real de que somos
feitos.»[noético-02/04/2014]

Sem comentários:
Enviar um comentário