quarta-feira, 2 de abril de 2014

A PERFEIÇÃO É IMPERFEITA

«Vivemos no sonho de alcançar a completude, atingir o máximo, querer, obter e utlrapassar tudo. Eis, uma verdadeira demência da cultura que ela não trata por que não se espelha nem se retrata a si própria. E nós, peixes que nadamos no seu aquário nem vemos que existem mais rios e muitos outros mares para além da aparente transparência do vidro que nos separa do resto do mundo. Entretanto vamos-nos queixando da maçã tocada, da verdura murcha e encontrando sempre algo ou alguém a quem expiar (atribuir culpa), cegos que permanecemos, nadando nas nossas habituais águas. Esta visão tem suas virtudes. É preciso, por vezes, saltar o muro. Mas o caminho não é só feito de muralhas. Quando caminhamos pela estepe o que nos parece fazer falta são tijolos, torres, arranha-céus, obstáculos. Quando caminhamos na montanha só desejamos planura. Quando amamos queremos amar tudo, dizer tudo. Perdemos a noção do tempo. Sabe bem, por vezes...Caminhar em desertos sem horizontes...Mas nem há palavras, nem actos, nem tempo que chegue a tamanha e hercúlea tarefa ou ambição. Talvez fosse melhor tomar mais atenção às pequenas irregularidades, imperfeições, detalhes que podemos apreciar a cada instante. Talvez assim nos conseguissemos relacionar de forma mais humana, sem apontar falhas, antes, compreendendo-as e respeitando-as, pois, são de facto, a coisa mais real de que somos feitos.»[noético-02/04/2014]


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