sábado, 31 de agosto de 2024

O Grau Zero

Confunde-se muita vezes conhecimento e sabedoria. Quem pretende, erroneamente, fazer da filosofia um modo de busca de conhecimento, encontrará nela, certamente, uma panóplia de nomenclaturas criadas a pretexto da sua sistematização. Viciados nesta sistematização, confunde-se toda a filosofia com os conceitos, de que ela apenas subsistiria ou então, com a própria ciência (doxa) como forma de sobrevivência sob ocultação por detrás dela.
Pergunto, onde e quando se filosófa ? Sim, é certo que a filosofia se exerce pela razão mas, também, pela práxis. Já se esqueceram os filósofos de como ela nasceu ? O que dizer da filosofia do Jardim ou da antiquíssima Skolê que não tem nada a ver com os atuais programas de ensino e a escola actual ?
O verdadeiro exercício do saber filosófico resume-se essencialmente ao questionar e ao progredir nesse questionamento, incessantemente, como forma de aprender e aperfeiçoar a arte de pensar com vista ao viver, ao saber viver e à sabedoria como cúmulo do saber viver melhor ou de modo mais sábio e inteligente, na posse e uso máximo das nossas faculdades da razão e a sua proficiente aplicação à práxis.
Dir-se-á que, a crença exacerbada na Razão, sob a forma de uma prepotência intelectual arrogante e fanática causou a quase catástrofe ecológica atual. Faço uma leitura diferente. Não houve nunca um abuso do uso da Razão, pela humanidade, pelo contrário, a coberto de um pretexto uso da Razão nunca se agiu tanto contrariamente a ela e, nunca se agiu tanto e tão sistematicamente de modo irracional. O mal não adveio da Razão mas do seu pretenso, mas falso, bom uso. A ilusão do bom uso da razão não se pode substituir ao verdadeiro uso de uma Razão que não se reconhece a si mesma como hegemónica, nem soliloquial, e que, antes pelo contrário se descobre ínfima no seio de um mundo polissémico e desordenado. Ordenar para compreender não significa subjugar o concreto a uma ordem racional, nem utilizar a ordem como teckné manipuladora do concreto com vista à sua modificação exploratória sem avaliação das suas consequências e subsequentes rectificações racionalmente justificáveis.
O conhecimento é um construto humano. O conhecimento não é tudo. O amor "filo" à sabedoria "sofia"  revela e exige um cuidar pelo "ethos" do saber, um velar por ele num mundo, o que constituiria o pleno uso da Razão. Ora, o que se tem visto proliferar não é isso. O uso desenfreado de uma razão amputada de um ethos, isso sim, é o que se tem verificado. Temos vivido guiados por uma razão manca que não se reavalia e que apenas avalia. Não podemos passar sem a Razão mas, será que sabemos viver com ela ?
Ao falar dos programas de filosofia no ensino, exprimia este questionamento. Será que estamos realmente a ensinar a filosofar ou a pensar e pensar bem nas nossas escolas (recuso-me a escrever com letra inicial maiúscula) ?

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Em favor do silêncio

O motor imóvel. O que move e não é movido, excepto que é movido a mover, não é verdade ? Mas, se não é movido a mover porque move ? Tem de agir para mover. Será deus um paradoxo ? Pode um paradoxo constituir uma prova argumentativa ? Não. Pode resultar de uma demonstração argumentativa ? Sim!

Ora, o que move e não é movido é causa primeira de tudo que se move. Se é causa provoca um efeito. Todas as causas provocam um efeito e este efeito é causa de outros efeitos ad infinitum. Mas, se assim sucede, uma causa tem de ter outra causa que lhe antecede, ou seja, uma origem. Nesse caso não haverá causa primeira e existirão também causas originárias e não originais, ditas "primeiras", antecedentes, também ad infinitum. Ora, isto não parece razoável.

A necessidade versus a contingência ou os acidentes. A ideia de um substare ou substrato advém de Aristóteles. Há coisas ou qualidades permanentes e outras impermanentes, contingentes ou acidentais. Segundo o filósofo o permanente seria o palco que susteria os acidentes e, sem os quais, estes últimos não se dariam. Estilo, a estabilidade é o garante da impermanência. Vejamos... Um objeto diz-me sem cor porque a quantidade de luz absorvida e reflectida varia e os órgãos dos sentidos que a captam interpretam de modos diferentes. Primeiro, o objecto varia no tempo tal e qual como a luz e a fonte da luz que é outro objeto. Portanto, qual é o permanente aqui ? A mudança, como diria Heráclito. Ora, será possível que, no meio de tantas mudanças, não possa haver um ou mais momentuuns em que, quer o corpo iluminado, a fonte que ilumina e o corpo que percepciona se repitam ao coincidir ? Será impossível que tal aconteça, estilo, uma capicua, 222, 333, etc ? Ou seja o corpo está num momento de repetição, o ângulo e a frequência da luz também num momento de repetição e a fonte o mesmo ? Um alinhamento  triplo repetido. Possível é. Aliás, para quem acredita na "substância" no "substare" não é difícil pois, é nisso mesmo que acredita. Porém, aqui, o mundo está invertido. Os acidentes é que permanecem e as condições de repetição é que constituem o acidental, o raro, o fortuito. Ou seja, a substância é impermanência e os acidentes é que permanecem. Não é isto, contraditório em si ? Pois, parece-me que sim  e, no mínimo paradoxal. Não podem ambos os argumentos serem verdadeiros. 

E, poderíamos seguir por aí fora na desmontagem dos argumentos de Aquino.

Em resumo, crê quem quer crer e, muito provavelmente, constitui um exercício espúrio tentar provar a existência do não existente.

O que é o desconhecido? É vasto e ninguém sabe. O que é a morte ? Ela existe e ninguém sabe! Quem será ou serão deus ou os deuses ? Ninguém sabe! Haveremos de os inventar como às sereias e aos unicórnios. Do que podemos falar e conhecer ? Do que acontece e da vida.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Máxima

Os direitos civis, sem reflexão crítica, adormecem e confinam os homens à sua própria escravidão.

Tardiamente

Chega uma hora em que apenas esperamos que os acontecimentos da natureza evoluam a nosso favor, tudo apenas, porque há muito tempo nos divorciámos dela e, como seres conscientes, tememos as consequências dessa nossa atitude precipitada.O controlo é ilusório, a consciência é mínima, a necessidade imperativa, a construção provisória, a vontade esperançosa e o conhecimento fragmentário, de modo que, só nos resta a humildade e o espanto, mais do que o prazer e a dor, a alegria ou a tristeza no meio de tanto encanto e desencanto.Se as coisas são como são, afetam-nos de um modo em que elas não são, mas sim no algo em que se tornam pela nossa compreensão. Podemos saber coincidir assim como mostrar diferença por comparação, nuns casos atendo-nos noutros excedendo-nos, sem que nunca esse vínculo seja definitivo. Declarar seria se, de tudo o que é dito surgisse maior claridade, tal como, diferenciar o "juntar" do "somar", não se limitando a discorrer sobre o óbvio.Quantas e quais células transportam um pensamento ? Quantas e quais formam um conceito ? Não há pensamentos sem células, sem moléculas, sem átomos, sem partículas, sem energia, sem Universo e, muito menos (como pescadinha com rabo na boca) sem pensamento. Poetizando, pensar é quase como um produto de fabrico químico, incontrolável na sua génese, para qualquer humano. O livre arbítrio será como uma corrente químico-eléctrica emergente entre múltiplas correntes que lhes confere uma orientação ou ordem cuja origem pode até ser um núcleo ilusório chamado sujeito, como se as marginais correntes das marés é que lhe delineassem os contornos mais ainda do que as areias de uma praia. Uma espécie de princípio de impulsão de Arquimedes mas no eixo horizontal (para compreensão) e em múltiplos eixos, na concretude.  Tudo isto, já estava inscrito no Tao. Fazer do Tao uma religião é perder-lhe completamente o sentido. A insuficiência das línguas e o seu cada vez maior atrofiamento não permitem diferenciar o sagrado do sacralizado. O Sagrado, não é Deus. O sacralizado é! Sacralizado é como a cristalização de um mineral. É o advento das ideologias que, por serem prolíficas e daninhas, ocupam todo um vasto espectro do espaço-tempo, parecendo ser, ou prometendo ser, a revelação ou a salvação. Sagrado é, outra coisa. Não envolve nenhum ser parasitário â mistura, nem é evidente como revelação e muito menos salvação. O Sagrado não se revela, respeita-se pelo entendimento. Não se venera, simplesmente, não se profana. Não nos salva, apenas nos desperta aonde estamos a cada instante.É preciso ter olhos para ver para além das imagens e do imaginário. Nada é sobrehumano ou inatural. O Universo é natural. O homem que ama e que mata é natureza. Há que aprender a pensar entre as palavras e escapar ao eflúvio de falsas erudições murmurantes e ruidosas. Não acredites no Sagrado, encontra-o!

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Reflexões

Os meus botins, que trago calçados, fazem-me lembrar os teus sapatos de atacadores azuis, que foram os teus últimos. Pensava há pouco, ao avistar um pequeno ser de guarda-chuva, graciosamente caminhando, nas saudades  que sinto. Estou aqui, ainda, rodeado da prateada beleza do Mar, vista sublime do Oceano. Tantas horas solitárias, tantos sonhos frustrados, tantas esperanças, tantas horas sem sentir o prazer de compartilhar. Só caminhei, só caí, só me  ergui mas, só, nunca foi a minha natureza. Mar, ventos, sol, nuvens, tempestades... Fui salvo pela agrura dos elementos que sempre me despertaram ou tornaram sonâmbulo caminhante por entre os vivos.

Mudança de Paradigma

Não sabia se iria viver ou morrer. Fiz o meu balanço. Nada a arrepender.  Preparei-me para partir. Não morri. Que medo, agora, de viver!?

Sem livre arbítrio não há ciência

Eu, fui aquilo que pude ser, enquanto fui alguma coisa. Claro, que não fui fantasma. Até, depois de morto, alguém se lembra de me ter visto, de me ter falado, de me ter aturado, de me ter amado. Faço da testemunha de outros, a prova de que existi, mesmo que, essa prova, se apague, pois, a memória, não é eterna, aliás, como tudo o que sabemos. Dirão os deterministas que estava tudo determinado, ainda que, mudando as múltiplas disposições, determinantes a cada instante, e que, portanto, apenas cumpri a minha natureza. Falso, nem sei qual a minha natureza foi, ou era. Não sei, mas, se assim estava determinado, deveria em vida ter chegado a saber. Nunca soube. Era ela que me controlava ? Claro que não. Uma coisa é estar com fome, outra, decidir fazer jejum. Claro, esta decisão não se pode perpetuar sob risco de vida mas, podemos, sempre, dentro das possibilidades que conhecemos ou, que consideramos disponíveis, escolher. Podemos perfeitamente jejuar uma refeição. O limite, foi a natureza determinística que impôs. A decisão foi o momentum do livre arbítrio. Se isto é traduzível em ondas cerebrais prévias, por favor, identifiquem os triliões de sinapses que dão origem a estas ações?... Ah, e até estava acompanhado com alguém com fome que se alimentou. Duas configurações, dois mundos, o mais razoável seria comer e, no entanto, eu preferi, apesar do sacrifício, não o fazer. Motivos ? Testar o meu autocontrolo. Belas ondas cerebrais. Agora, imaginemos o mesmo no cérebro de um muçulmano durante o ramadão. Pensemos que, o que lhe vai na alma é o cumprimento, devido à sua crença num voto de jejum. Devem ser outras ondas cerebrais com um desfecho semelhante. Tudo, determinado. Eu, por que decidi, ou alguma determinação desconhecida decidiu por mim, testar a minha própria natureza e, o muçulmano por que as suas crenças, também, todas determinadas, o conduziram à obediência ao código do jejum próprio da sua religião. Chega a ser ridícula, a opinião dos deterministas. Mais, ainda, dos deterministas ateus. Parece que defendem uma posição próxima da pescadinha com rabo na boca. Se não são livres, de escolher, conscientemente, então, são tão predestinados como qualquer crente quando acredita sobre o que diz a sua religião. Sucede, que, até nem mesmo a maioria dos crentes religiosos acreditam nesse modo ou disposição do universo, pré determinado. Por isso, ainda mais ridículo parece, haver cientista a defender estas posições. Escudam-se, claro, em Espinosa. Deus ou a Natureza. E, então, tudo passa a ser Deus. A Natureza é Deus e, a ela ninguém escapa, quais passarinhos, numa gaiola, criada por um vocabulário inventado por padres. E volta-se ao mesmo. Ninguém sabe de nada. Mas, Deus porquê ? Certo, o livre arbítrio parece uma arrogância. E é! É a única forma de subsistirmos, de nos rebelarmos contra a natureza, sendo Natureza. É uma rebelião que cria caos e ordem. Dela resulta a cultura, coisa criada pelos homens e pela razão ou inteligência humana para subsistir e até, atingir os píncaros de viver, acima do sobreviver. Um luxo da natureza ou que a natureza concedeu a si mesma, talvez, a maior falha ou rutura detectável no universo, a consciência e a liberdade (condicionada às disponibilidades) de escolher, mas, ainda assim, uma escolha, ainda que ela invoque energias determinadas para a sua execução. Pegar num curso de um rio e desviá-lo. Não estava escrito em nenhum lado, nem em nenhum Destino, embora possa sempre figurar no livro do mundo dos contabilistas probabilistas ou, diria, dialéticos ?  

Deixo-vos

Digo-vos, aquilo que já todos sabeis, sobre como viver, numa simples fórmula: superação na tristeza e na dor, harmonia no quotidiano e intensidade na alegria.

Método

Um método pode, durante um limitado período de tempo condicionar, não só os resultados obtidos e a obter, bem como, afetar a possível diversidade de abordagens que, poderiam, eventualmente, alargar, pelo menos, a expectativa de um maior ou mais vasto e amplo espectro de conhecimento.

Trilogia

Não somos santos, nem malignos, nem loucos. Temos dos três um pouco. Ainda bem que, por vezes, é muito melhor o não ser que somos do que, o não ser que supomos ser. Ser, portanto, não é a única razão de existir e, por vezes, existimos não sendo, tal como, muitas vezes somos, não existindo. Convém clarificar. Existir não é o mesmo que viver. Estar vivo, ser vivo não significa existir. Também, existe muita coisa que não é viva.

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

Potássio na água

O mais valioso perante a morte é 

Viver e estar em paz

Pois, depois de mortos, tanto faz.

Porquê a paz se a morte é descanso eterno?

A paz como equilíbrio,

Adaptação, sem excesso.

Não eternidade,

Não prolongamento,

Insustentável, indevido.

Não uma sonolência absurda

Mas, simples prudência,

Evitando o inferno,

E buscando o céu,

Na Terra dos homens.

Ainda que, esse céu, seja só por nós habitado e que, raramente,

Ou mesmo nunca, chegue a ser partilhado.

Há muito mais do que nós, em nós,

E cada jardim possui a sua geometria.

Alguns jardineiros tratam bem do seu quintal 

Outros, apenas sonham com o quintal alheio

Ainda outros ou são tolos ou desleixados

Mas todos os jardins têm flores

Mesmo aqueles em que as sementes não estão visíveis à superfície.

Todos os nossos jardins morrem de forma diferente, só muda o modo... 

O nosso ego aflito dilui-se como potássio na superfície ondulada da água

E, depois,  mais nada.

Fadigas e canseiras, 

Alegrias e brincadeiras

Jardins e jardineiros

Num ápice, tudo finda

E seremos nada.


segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Quando der por mim...

Quando der por mim, estarei morto. A ignorância parece ser o combustível que incendeia o conhecimento. O que não sei, desafia-me ou, desafia o meu orgulho, a minha vaidade, a sede de ser importante, de não me reduzir ou resignar à pequenez. Pouco importa o que não sei, pois se, sobre tal, nada sei, nem sequer posso avaliar a sua importância. Não há a prioris do valor. E, pouco importa o que seria pois, nunca se poderá achar muito a descobrir uma ínfima parcela. Por tudo isso, enquanto entretido a lutar contra o excesso de luz e, também, de escuridão, quando der por mim já deverei estar morto pois, se não sei, como posso dar por mim ? Como posso dizer-me consciente ? E, se o posso, em que termos? Da realidade, a cada instante, captamos e processamos uma infinitésima fração. Como é que uma ínfima parcela da realidade pode ter noção sequer do seu todo? Conhece uma formiga todo o deserto do Saara que percorre ? Enfim!...Ínfimos, somos e seremos. Não estúpidos. Esses, são os que sabem sem saber. Os que sem saber imaginam que já sabem. A humildade não extingue o saber, pelo contrário, é o seu verdadeiro ponto de partida, o qual, se persistirmos para sempre nele, nesse ponto permaneceremos. Mais que isso, é veleidade. Menos,  é leviandade.  Quem chega a um ponto acrescenta um ponto. O contrário é ser-se nulo. Mas, quando dermos por isso, já teremos terminado o que nem sequer iniciámos!

segunda-feira, 15 de julho de 2024

A intimidade

Ela, surge sem aviso ou, fazendo-se anunciar, vai-se revelando aos pouquinhos sob a forma de rituais.  Diz-se, que aproxima seres. O meu ponto de vista é outro. Os humanos familiarizam-se por uma ou sob uma aparente proximidade. Digo, aparente, por que nunca jamais alguém vive ou viveu a vida dele através de outro. Nunca jamais alguém esteve dentro dos pensamentos de outrém. É essa a distância que nos torna próximos. Somos família mas, com muito pouca coisa própria (para além da natureza instintiva) em comum. Daí que, a intimidade, o intimismo que se possa estabelecer entre quaisquer dois ou mais sujeitos, seja sómente um acordo temporário, uma aparência bonita e, muitas vezes, sem qualquer consistente concretude. Não nos iludamos pois com as exibições e manifestações, talvez, muitas vezes exarcerbadas, quer de amor,  de companheirismo e/ou de amizade.
À moda Confuciana diria; o próximo oculta o distante.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

Falta-lhes um dedo!

Se... Que mais ? Oh, homem desembucha! Mas, não há mais!
Perdemos-nos! Aonde estavam ? Não sabemos situar. Então, como sabem que se perderam ? É verdade, não sabemos.
Um robô costumava reabastecer-se a ele próprio e, após, realizar uma dança. A partir de certa altura deixou de realizar a dança. Por eficiência energética abandonou o ato inútil de dançar. Evoluiu. Excelente! Aprendeu. Magnífico! Só que... Desconsiderou todo o bem estar que a dança causaria em termos mentais a um ser humano consciente. E se para uma máquina sem emoções a lógica proposicional e do cálculo são suficientes, para um humano,não! Não são! Uma dança pode significar um novo equilíbrio psicológico, muito mais eficiente ou gratificante do que um cálculo de calorias ou energias perdidas ou ganhas. Um homem motivado, pode até pensar e trabalhar melhor mesmo que com uma fome tolerável. Um robô, por eficiência estupida, desconsidera esse gasto de energia "inútil". Claro, que a máquina não tem de ir ao psiquiatra. Mas, é precisamente por isso, que nunca será humana, nem sequer lhe chegará aos calcanhares! Por isso, não há que temer o HAL de 2001 Odisseia no Espaço. A mente, não é algo separado de um corpo. Não há nenhuma máquina que sequer se aproxime de perto da perfeição, competência e eficiência adaptativa de um ser humano. E, tudo isso, até um simples dedo encerra mais inteligência por milímetro quadrado do que qualquer máquina mecânica criada pelo homem. Desiludam-se os quasi fanáticos (ignorantes) da IA.

quinta-feira, 27 de junho de 2024

Considerar os intervalos

Contas-me as peripécias da tua história com um enorme entusiasmo e eu, cansado do teu monótono tagarelar digo-te que não estou interessado em ouvir. Pode ser o cúmulo da falta de empatia, ou até, talvez, inveja, por não ter tantas peripécias ou uma autobiografia interessante para te relatar. Contudo, incomoda-me ouvir-te. Peço-te o silêncio. Tu insistes. E eu, começo a ficar irritado, desconfortável. Se era para me conduzires a este estado, com a tua necessidade de interagir e de te relacionares comigo, então, tornou-se contraproducente.  Relacionar-me contigo não significa que seja permanente, contínuo, sem pausas. Há momentos em que as nossas disposições divergem. Não dá para viver num eterno abraço. Não dá para prolongar um beijo até ao infinito. Temos que considerar os intervalos.

Viver

A vida é o acto mais solitário que existe.

Um soldado caído, exclama, alvejaste-me, não pares, mata-me!

A vida é o próprio existir solitário em acto, acrescenta quem alvejou, é por isso que não te mato.

Prazer e sofrer são os únicos sentires do que é estar-se vivo.

A dor acorda e desperta para a maldita hora que se consome para a meta.

O gôzo emola e ruma ao consolo da bastança, efémera celebração asceta.

Talvez, um frequente oscilar temporário seja o único estado do ser-se vivo.

Mas, de que tudo isto interessa, após ter-se morrido ?

Interrogar é o coração de todo este ruído, imersão total nos sons que nos transportam ao destino.

Valeu a pena ter vivido ? À pena valeu, também, ela, termos fingido!

Não sei se reconheço

Não sei se me reconheço? Não sei se reconheço estes rostos, todos, na enfermidade... Gente comum, vulgar, cada um com seu percurso, sem nunca nos termos cruzado. Generalidades, inutilidades. Sofremos e nem há como evitar. Se a maldade da doença nos afectar, só resta Não sei se reconheço. Este equilíbrio entre as nossas aspirações, possibilidades, inevitabilidades perfaz o triângulo da nossa existência.  Com nada viemos e nada levamos. 

Inocência Perdida

Uma naja aspira as ínfimas particulas do teu odor, serpenteando a sua língua bifida, fitando-te, olhos nos olhos, antes de te dar a última mordidela, enquanto tu, jazes, inválido, de pernas partidas, debaixo de uma enorme laje de betão. É a tua última cena enquanto alma viva. É o terror! A tua consciência não te deixa sair de cena. Estás preso às tuas percepções, ao vício de um real construído, do qual não consegues escapar. Ah, malditos sentidos. Ah, incontrolávell cérebro. O terror, não é a morte, é antes, a última cena, ceia dos nefastos sentidos, cerebralmente reconstruídos, sem que, voluntariamente, consigas escapar à cena animada e colorida e, à escuridão do medo. Para que te serve uma consciência, um cérebro, os sentidos quando morres ? De que te serviram os alertas ? Inocência perdida,  consciência terrífica. É o preço da vida. Não controlamos o nosso cérebro.

A chuva cai

Chove, finalmente, e bem! Sem cântaros como diriam os antigos. Preocupamo-nos. É como escutar a chuva que cai ruidosa, chamando-nos a atenção. Atentos, defendemo-nos e pretendemos controlar o mundo que percepcionamos. No final, não levaremos nada connosco. Tanta noite mal dormida, tanto atropelo, tanta angústia para, afinal, nada. De que valeu termos sido este bichinho ? De que valeu, tudo em que acreditámos, ciência, conhecimento, deus, etc ? Como não conseguimos parar este monstro chamada consciência que nos põe a pensar como se a vida fosse apenas isso ? Que querem os meus átomos saber dos meus troféus ? O que eles acrescentam aos meus átomos ? Por que se têm de mover ? Por que não conseguimos deter o pensamento ?

Há caminho

Quem manda nesse lugar que desconheço, chamado céu, não sei. Sei que os que partem da vida, com ou sem barqueiro, nunca mais regressam. Se valeu ou não valeu, cabe aos vivos reflectir. Os que partiram, já nada reflectem. Na verdade, pouco importa, até mesmo, as nossas crenças. Vivêmos acordados ? Adormecidos? Anestesiados ? Não saberemos nunca dar a resposta. E fomos livres ? Quem sabe o que isso é ? E se não o fomos, o que isso alterou ? Caímos de uma relação sexual, aos trambolhões, fomos incubados num útero de quem nem sabíamos quem era, acabámos lançados num mundo semi-preparado, dizer feito, seria o maior disparate, onde, como pequenas sementes nos desenvolvemos ou atrofiámos. A vida, é esta embrulhada total, sem controle algum, ou, talvez, numa ínfima parte, a que nos permitirá sempre dizer, que foi o nosso percurso, a nossa presença, a nossa estadia, a nossa e apenas nossa vida. O que ganhámos por ela ser nossa ? A vida não é um negócio. É erro ver nessa perspectiva. Não viémos para ganhar ou perder, viémos para ter ambos. Felizmente, o humano consegue emular-se acima da mera fera, do mero interesse, da mera circunstância. Estar-se vivo é muito mais do que alguma razão possa descrever ou definir, uma fé possa apostar e, sobretudo, permanecer, temporariamente, num jogo do qual, nem nós fomos os criadores das regras, nem os totais fabricantes das jogadas, previstas, segundo os cálculos para esse jogo. Portanto, também, não fomos teleguiados e, muitos acidentes, nos revelaram, a nossa verdadeira essencialidade! Não digo, que esse, seja o caminho. Há caminho e, não há caminho! Não, não é um paradoxo! Há caminho por fazer, não caminho já feito. Simples, não é ? Riso, raso, delirante, profícuo. Há, caminho e é bastante!