«Por
momentos, estremeci. Julguei-me senhor da descoberta... Fugitivo da
incerteza que procurava habitar-me. Não era o tempo que se escondia nos
quadros desertos que pintava. A luz, criava contornos e bonecos que eu
recortava como figuras de papel, feliz com o domínio das minhas mãos
calejadas pela frenética voracidade de viver que não me abandonava. As
palavras atapetavam o caminho, semeadas como
relva entre jazidas que a chuva sorvia nas enxurradas. Sonhava com
poetas todos os dias. Via na poesia o alcance lacustre das paliçadas
erigidas de encontro aos astros. Poemas eram histórias. Lugares
habitados nos interstícios dos versos. E compreendia, reflectia e
analisava. Sentia e imaginava que com aquelas minúsculas pedras criava. A
solidão era estar contigo e só sobrar o silêncio numa guerra surda de
almas, que ao embaterem nas folhas secas ecoavam próximas como peúgadas.
Ruídos, silêncios, murmúrios de maquinaria numa azáfama fabril
produtora de espectros. Oh, como eu morria!...Morria enfastiado da orgia
que os sentidos plagiavam da natureza...Vivia suspenso por um verso da
tua pena...Vivia com a vida que me abandonava. E a minha alma, essa
fantasia diletante que jamais me esmorecia, fazia. Fazia, fazia, fazia
suspirando por vitórias e bravatas que despedaçavam os sonhos em utopias
e quimeras. Ah... A alma é nada, mas veste-se com as cores das palavras
coroando-se com a virtude dos insensatos. Mas...Depois disso, não há
mais nada. Ou haverá ?...» [noético-26/10/2013]

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