quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A VIRTUDE DOS INSENSATOS

«Por momentos, estremeci. Julguei-me senhor da descoberta... Fugitivo da incerteza que procurava habitar-me. Não era o tempo que se escondia nos quadros desertos que pintava. A luz, criava contornos e bonecos que eu recortava como figuras de papel, feliz com o domínio das minhas mãos calejadas pela frenética voracidade de viver que não me abandonava. As palavras atapetavam o caminho, semeadas como relva entre jazidas que a chuva sorvia nas enxurradas. Sonhava com poetas todos os dias. Via na poesia o alcance lacustre das paliçadas erigidas de encontro aos astros. Poemas eram histórias. Lugares habitados nos interstícios dos versos. E compreendia, reflectia e analisava. Sentia e imaginava que com aquelas minúsculas pedras criava. A solidão era estar contigo e só sobrar o silêncio numa guerra surda de almas, que ao embaterem nas folhas secas ecoavam próximas como peúgadas. Ruídos, silêncios, murmúrios de maquinaria numa azáfama fabril produtora de espectros. Oh, como eu morria!...Morria enfastiado da orgia que os sentidos plagiavam da natureza...Vivia suspenso por um verso da tua pena...Vivia com a vida que me abandonava. E a minha alma, essa fantasia diletante que jamais me esmorecia, fazia. Fazia, fazia, fazia suspirando por vitórias e bravatas que despedaçavam os sonhos em utopias e quimeras. Ah... A alma é nada, mas veste-se com as cores das palavras coroando-se com a virtude dos insensatos. Mas...Depois disso, não há mais nada. Ou haverá ?...» [noético-26/10/2013]

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