«Já
não creio em espaços ocultos cuja substância o pensamento quereria
povoar. O feito deixa todo o por fazer por realizar. Um gato poderá
seguir esse novelo e até aprender a tricotar a lã que lhe ensinaram.
Vultos movendo-se como sombras neste firme firmamento, neste lamento
quotidiano da realidade, agitando-se como fantasmas sem qualquer
recurso, sem qualquer cenário, limitando-se a expressar. A
conta gotas flui a água humedecendo cada recanto sentimental.
Queixumes, nervosismos, alívios, gritinhos ténues em expiral. Anoitece. O
silêncio entra pelos poros da melodia que se meneia ao ritmo da dança
do tempo. Não há inferno, exclama-se, acompanhado pela eloquência dessa
feliz sentença. E os dedos adormecem na memória de qualquer superfície
reconstruída a detalhe como a cinza vulcânica erguendo poeira de
qualquer cratera ao compasso de cada passo.Não...Não é sonho nem
evidência. É fissura arquitectónica que a timidez faz corar de cimento e
pedra reduzida a areia do mar. Era aqui nesta terra que costumávamos
namorar os nossos planos de dimensões estrelares. Agora é apenas
espectro de lembrança, rebuçado que nos deixava divertidos de lábios
lambuzados. E sorríamos jovens afogueados pela importância do nosso
acreditar. Hoje, somos um nó deslaçado, fragmentos de intensidades.
Amigos, amantes, desmaterializados. Hoje, tal como ontem e amanhã,
seremos. O ser se cumprirá ainda que sem missão ou finalidade nestes
nossos invólucros ossificados.»[noético-14/ 02/2014]

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