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| Souza Neto - Linhas Paralelas |
«O paralelo tem tanto de romântico como de ambíguo. Se duas linhas se
prolongam e não se discute o destino de cada uma delas, mas apenas se
imagina entre elas uma infinita, porque inultrapassável, e finita,
porque plenamente mensurável, distância, também são um convite à
fantasia da fusão, precisamente no infinito imensurável. A ideia de
paralelismo, evoca também uma dimensão de sincronia, em que todos os
pontos, componentes das linhas ou dos planos se alinham permanentemente, como um substar,
um permanecer inalterável e inalienável. A distância entre linhas é uma
espécie de composição libidinosa de carácter platónico, os pontos que
se vêm mutuamente mas não se tocam. A geometria impera. O modelo ofusca.
O divino pode ser paralizante ou não, dependendo dessa mesma crença. A
ilusão do passado e do futuro conjugam-se, nessa conjunta separação, que
nada diz sobre o presente, mas que se projecta no futuro, no
seguimento, no encadeamento dos pontos equidistantes. Não se sabe o que
percorre cada linha. Diz-se então uma narrativa, declara-se como tal. A
narrativa aparenta movimento ao contrário da forma que parece imóvel.
Mas no paralelismo, tudo parece síncrono e, no entanto, se cada linha ou plano é
um movimento, uma narrativa, pode não haver uma história, mas pelo menos
duas, entre muitas outras possíveis. E, na aparente sincronia da forma,
prefigura-se o assíncrono. Duas linhas e duas narrativas. Quatro ou
mais e é preciso igualar. Mas, na realidade, é indecidível se qualquer
paralelismo existe, apesar da permanência da sua forma geométrica. O que
a arte tem de belo é esse poder sobre o misterioso silêncio, do saber
dizer sem saber como o dizer.» [noético-11/02/2014]

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