quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

PARALELISMOS

Souza Neto - Linhas Paralelas
«O paralelo tem tanto de romântico como de ambíguo. Se duas linhas se prolongam e não se discute o destino de cada uma delas, mas apenas se imagina entre elas uma infinita, porque inultrapassável, e finita, porque plenamente mensurável, distância, também são um convite à fantasia da fusão, precisamente no infinito imensurável. A ideia de paralelismo, evoca também uma dimensão de sincronia, em que todos os pontos, componentes das linhas ou dos planos se alinham permanentemente, como um substar, um permanecer inalterável e inalienável. A distância entre linhas é uma espécie de composição libidinosa de carácter platónico, os pontos que se vêm mutuamente mas não se tocam. A geometria impera. O modelo ofusca. O divino pode ser paralizante ou não, dependendo dessa mesma crença. A ilusão do passado e do futuro conjugam-se, nessa conjunta separação, que nada diz sobre o presente, mas que se projecta no futuro, no seguimento, no encadeamento dos pontos equidistantes. Não se sabe o que percorre cada linha. Diz-se então uma narrativa, declara-se como tal. A narrativa aparenta movimento ao contrário da forma que parece imóvel. Mas no paralelismo, tudo parece síncrono e, no entanto, se cada linha ou plano é um movimento, uma narrativa, pode não haver uma história, mas pelo menos duas, entre muitas outras possíveis. E, na aparente sincronia da forma, prefigura-se o assíncrono. Duas linhas e duas narrativas. Quatro ou mais e é preciso igualar. Mas, na realidade, é indecidível se qualquer paralelismo existe, apesar da permanência da sua forma geométrica. O que a  arte tem de belo é esse poder sobre o misterioso silêncio, do saber dizer sem saber como o dizer.» [noético-11/02/2014]

Sem comentários:

Enviar um comentário