segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

DE VOLTA A AL BERTO

Terra - Guy Garnier
«Nada me consola, nada me desperta curiosidade, nem as mãos que inventaste para me revelares escondidos lugares me tocam. Sou o último habitante da espessa noite do desejo, morada do imenso cansaço onde as alucinações perturbam e maravilham. A voragem dos amargos dias de espera, a prolongada espera, o tempo que abre medonhas gretas na memória. sombras azuladas de corpos movendo-se na paisagem.Dantes, tremia ao ver-te, podia confundir-te às mais estranhas paisagens. Hoje, apenas as percorro, já não faço parte delas. Pouso as mãos no fundo do rio, reconheço as aves estelares que pernoitam a meu lado e assustado continuo a sobreviver. Das ruas sobe um cheiro a enxofre, e da cal soltam-se rumores e palavras que não conheço. O corpo arruinado caminha de vislumbre em vislumbre, à procura dalguma repousante eternidade. Mas, por vezes, alguém murmura ao ouvido enquanto durmo. São palavras confusas que me percorrem, finjo continuar a dormir. Suavemente procuro com o suor das mãos o rosto, e no escuro encontro o que se parece com a ausência desse rosto. Nunca o meu ou o teu rosto. Depois, um corpo sem dimensão nem peso cola-se-me à pele, não ouso abrir os olhos, se o fizesse descobriria o segredo disto e todo o seu medonho esplendor. Não devemos perturbar os mortos quando humildemente se estendem sobre nós, e amam.» Al Berto, O Medo ,Liv. V, 4ª ed., p.231, ed. Assírio & Alvim


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