«Nada
me consola, nada me desperta curiosidade, nem as mãos que inventaste
para me revelares escondidos lugares me tocam. Sou o último habitante da
espessa noite do desejo, morada do imenso cansaço onde as alucinações
perturbam e maravilham. A voragem dos amargos dias de espera, a
prolongada espera, o tempo que abre medonhas gretas na memória. sombras
azuladas de corpos movendo-se na paisagem.Dantes,
tremia ao ver-te, podia confundir-te às mais estranhas paisagens. Hoje,
apenas as percorro, já não faço parte delas. Pouso as mãos no fundo do
rio, reconheço as aves estelares que pernoitam a meu lado e assustado
continuo a sobreviver. Das ruas sobe um cheiro a enxofre, e da cal
soltam-se rumores e palavras que não conheço. O corpo arruinado caminha
de vislumbre em vislumbre, à procura dalguma repousante eternidade. Mas,
por vezes, alguém murmura ao ouvido enquanto durmo. São palavras
confusas que me percorrem, finjo continuar a dormir. Suavemente procuro
com o suor das mãos o rosto, e no escuro encontro o que se parece com a
ausência desse rosto. Nunca o meu ou o teu rosto. Depois, um corpo sem
dimensão nem peso cola-se-me à pele, não ouso abrir os olhos, se o
fizesse descobriria o segredo disto e todo o seu medonho esplendor. Não
devemos perturbar os mortos quando humildemente se estendem sobre nós, e
amam.» Al Berto, O Medo ,Liv. V, 4ª ed., p.231, ed. Assírio &
Alvim
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