quarta-feira, 8 de outubro de 2014

FILAMENTOS

«Não estou num estado. Estou em trânsito. Tu, apresentas-te como um agora mas, vives a pensar no depois. Depois, não é apenas no tempo que devora todo o presente. Depois, é, também, o que à partida, um passado, te leva a cogitar como fruto, resultado, consequência. Psicólogos, chamam-lhe 'situar-se'. Saber situar-se...Parece uma normalidade, um passo estudado de uma caçada, um degrau necessário para alcançar, mais do que um triunfo, um troféu. Maldito intangível, sempre presente. Intocáveis, somos todos nós, desde o corpo às esferas, desde a voz à escrita, desde a música ao silêncio e, por aí fora. Todos preferimos o decifrado. Amamos triunfar, senão, para que serviria glorificar o triunfo, o esforço, o trabalho ? Sofrer não para fazer das dores queixume mas para as transformar numa delirante chuva de rosas, de preferência, perfumadas. Não sei se escrevo ou apenas gatafunho epitáfios?... Tudo morre escrito ou por escrever à margem do nosso desejo insaciável. Vou-me embora. Vou-me silenciar. Vou-me impedir de pronunciar. Afinal, quando dizia que falava apenas articulava fonemas ao desbarato...Não nasci para relator, narrador, romancista, literato. Pensador? O que significa isso ? Confesso que não faço ideia pois, nenhuma ideia aprendi a fazer. Não faço por isso ideia do que possa ser uma ideia.  Ah! Mas digo a toda a hora que sou como uma lâmpada acendendo e apagando, num discurso binário criador de intermitências. Ligar a corrente ou desligá-la preservando o seu abastecimento alternado. Dosear correntes, sentimentos, palavras e outras sonoridades. Dosear ritmos e baladas. Dosear a vida desligando-a para manter como suspenso o jogo autêntico entre o começo e o fim. Brincando como numa casa de bonecas ao aparece e esconde para tornar, de novo e sempre a procurar. Mas, de quando em vez o gerador parece falhar. Mais um falso alarme? Mais um alarme que dispara? E a turbina sempre a rolar. Perigo! Rotação elevada. Será esta mais uma falsa avaria mecânica fruto de um insecto ou ácaro que pousou nalgum filamento da nossa vida ? Não sei. Só sei que me vou. Para onde, como, por que razão, não sei também! Se tivesse que explicar todos os passos da minha caminhada imagino que só encontraria desvios e escapatórias mesmo até quando meus pés rolavam num planisfério de rotas e rumos georreferenciados. Adeus! Odeio esta palavra! Vou-me, é bem diferente de ir-me. Por agora, vou-me. Ainda não me fui e, no entanto, já aqui não estou.»[noético-08/10/2014]




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