quinta-feira, 2 de outubro de 2014

O NAUFRÁGIO DO DOGMA

«Foi-te dito que alguém seria teu porto de abrigo. E tu cresceste com o sentido que terias que agradecer a cada marinheiro que te salvasse de um naufrágio. Enganaram-te! És órfã da verdade, por que os factos, nunca são como os homens os contam, antes, simplesmente, o que aconteceu, embora, até isto, possa ser mera efabulação. Alguns factos, raros, são indesmemtiveis, pois dizer que são indiscutíveis tem um significado diferente. Um facto é sempre um facto, indesmentível mas, muitas vezes, altamente discutível. Por isso percebo a polémica quanto aos factos mas, rejeito, liminarmente, a discussão sobre a sua factualidade. O dogma, não é, neste caso, um dogma mas, sim, o produto de uma vivência real e de uma ou várias convicções que nada têm a ver com qualquer crença ou superstição inventada ou melhor, propositada, ainda que possa, no caso humano, ter existido um propósito para que tal facto se tenha realizado. Mas, há, por isso, talvez que distrinçar entre factos, acontecimentos, eventos e artefactos. É que, muito daquilo que chamamos factos são na realidade artefactos. Porquê artefactos ? Por haver arte neles? Talvez...Mas, sobretudo, existe neles, muita artimanha. São realidades que acontecem mas, são reditas sem correspondência real entre o que sucede e a palavra. Não existe assim qualquer desígnio ou designador que não seja o homem. Não existe sequer qualquer corrector, embora, isso faça também parte do ridículo das nossas personagens. Sim, é verdade. Mas o que é a verdade ? Certamente que não é o meu ponto de vista, nem o teu, tão pouco. Mas, também é escusado pensar que ela pertence aos estudiosos, santos ou eruditos. Fazer as coisas resultarem ainda que se conheça um só modo de as fazer resultar, não torna essa via uma verdade absoluta, nem a única via para o fazer, embora, possamos com a nossa natural tendência para seguir rumos fáceis, aproveitar esse modo inventado, para o realizar. Por isso, mais vale esquecer o dogma.»[noético-01/10/2014]





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