«A
vergonha da esmola. Sim, a vergonha da esmola! Dá-se uma esmola e
alivia-se a pia baptismal da consciência como se as suas águas ungidas
purificassem a mente. Lava-se as mãos à Pôncio Pilatos e expressa-se,
não me diz mais respeito. E assim, nesta indiferença, tudo parece correr para
uma sociedade dos irmãos, solidários, voluntários. Tudo para bem do
outro neste perfeito marketing global. Mas quem é o outro ? Aquele que
nos apunhala nas costas ? O que nos entrega o seu coração e que assim
que o pode nos trai ? Que irmãos são estes ? Já te interrogaste ? Passa
por cima, limpa com um pano branco, lava de novo a consciência. Finge
que o conceito continua imaculado, intocado. Faz de conta! E continua a
oferecer umas esmolas e a fazer voluntariado. Pelo menos, causarás menos
ondas políticas e ficarás ocupado. Sairás ileso do julgamento final,
esse, que muitos acreditam que existirá. Sim. Dispensarás da oral. Terás
sido um irmão. Um próximo de um santo. Os outros, aqueles que te
prejudicaram ou prejudicaram os outros ou que simplesmente nada fizeram
pelos outros, serão atirados para o eterno fogo dos infernos de onde só
tu sairás vitorioso. Vergonha ? Só da esmola! Ainda acreditas em juízes
no outro mundo ? Haverá algum tribunal nos céus ? Já pensaste no
ridículo de tudo isto ? Nesta converseta da treta que te impingem como
verdade ? Por que digo que é vergonhosa a esmola ? Por que há no mundo
meios para conferir dignidade a cada ser da nossa própria espécie. Não é
preciso esmola alguma, banco alimentar, operação sorriso ou qualquer
outra treta. Não! Não seria necessário se todos tratassemos os nossos
irmãos como tal. Há riqueza suficiente para distribuir. Já pensaste que
com 4,90 euros na conta bancária poderias ter direito a mais duas ou
três refeições para ti e para os teus filhos ? Mas se fores a muitas
superficies comerciais com o que te deparas ? Não podes pagar com
multibanco essa despesa. Custa caro um estabelecimento ter um aparelho
de pagamentos automáticos. E tu, que só tens 4,90 euros no banco é que
tens que te aguentar. Sim! Em alguns estabelecimentos, como aqueles dos
tais empresários de sucesso, terás pelo menos que consumir 20 euros para
poderes utilizar um pagamento automático. Chamam estes «hipócritas»
empresários de sucesso a isso, uma necessidade. Claro que para eles é
uma necessidade. Para ti, com 4,90 euros, não podem existir necessidades
de alimentar as bocas famintas que tens em casa. Depois divertem-se com
campanhas de solidariedade para português ver. Apoiam o banco
alimentar, a operação sorriso e tantas outras, mas sempre, sempre, sem
sequer baixarem os preços dos cabazes alimentares. É giro não é ? É uma
grande esmolinha para o pobrezinho, não é ? Pois é! E se fossem bugiar
não seria bem mais apropriado ? É mentira ?... Confirmem por vocês
mesmos. Depois venham-me cá com essa treta da esmola, da solidariedade
ou da preocupação pelos mais probres. Nem sequer digo o palavrão que me
apetece chamar aos tipos responsáveis por tudo isto... Enfim...E depois,
ainda levas com o discurso, ama o teu próximo como a ti mesmo. Xiça,
que não há pachorra! Dispensem-nos da porcaria da vossa esmolinha!»
[noético-09/01/2014]
quinta-feira, 9 de janeiro de 2014
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
THE CYCLE OF JOY
![]() |
| Nuno Trindade - Suave Alentejo |
To ascend, to flourish and to return. All the cycle of life takes place
in the silence of time. All life is beautiful though beauty may also
bring us pain. So we may also see the sun while it rains. No mystery is to
be found. Let us enjoy the energy of the wind blowing. We don't need to
know where it flows. Our heart can grow in a desert land and even so be
completely delighted by the sole appeal of the
earth.
[noético-03/01/2014]quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
O ESPÍRITO DOS DIAS
«Há
um tempo em que o sangue gela. Paro, escuto e ponho-me a sentir...
Desejar mais ? Querer o que tenho diante dos olhos ? Mas é possuir que
me torna mais feliz ? Acumular tem realmente algum significado se nem a
vida levamos da nossa própria vida ? Não, isto não são pensamentos
negativos, contaminados por qualquer moral que coloca tudo em termos de
preto ou branco, de bem ou mal, de positivo ou negativo, bem ao jeitinho
do maniqueísmo platónico subtilmente cristianizado. As raízes disso,
deixo para explicar em outra ocasião. Por agora, concentro-me no
conceito de vazio e relembro-me do TAO. No vaso que se enche e vaza e
que nunca está verdadeiramente cheio nem derradeiramente vazio. A
verdade e a autenticidade ganham nas pretensões, mas perdem nos actos.
Vence, quem melhor se souber vender e promover. Fama e sucesso são fogo
fátuo, embora possam perdurar muito tempo. Mas será o tempo que ditará
isso ? O esforço, o querer, o lutar ? O que significa triunfar, afinal ?
Existe algum triunfo, de facto, nas nossas vidas? E se existir, será
que é repetível, reprodutível, mensurável, conservável ? Ah!...Guardar
memórias...E lá voltamos nós novamente ao acumular. Dizemos que sem
sedimentos não existe experiência perdurável, que sem recordar, tentar
perpetuar, perderíamos o Norte. Isto, parece-me muito mais um vício que
adquirimos do que uma verdadeira proposta de viver. Habituar-nos a este
tipo de vícios torna tudo muito mais fácil, cómodo, implica muito menos
trabalho. E é então que surgem os gurus da economia salvadora, tentando a
todo o custo libertar-nos da dor que é quase sinónimo de infelicidade.
Pois é, toda uma economia se constroi com base nas nossas crenças,
valores e prospera à base de receitas que mais parecem a banha da cobra
vendida em qualquer feira de vaidades. Há um tempo em que o sangue gela,
de facto. Em que, parar, não significa ganhar nem perder tempo. Tudo
isso, é produto de calendários bem diferenciados dos nossos. Não faço
contabilidades. Contabilizar é já o fruto de uma acumulação, de um vício
de ponderar sobre as trocas. Mas como reaprender para além deste
uni-verso (único universo) que se baseia no número e na força dos
números ? Que dizer deste uni-verso que se centra nos rebanhos, porque a
eles se lhes prometem cobras e lagartos travestidos de céus exuberantes
e repletos de delícias jamais conquistadas ? Parece tão bom seguir sem
saber por onde ir... Pois é!
Alguns ainda acreditam que a lei dinamiza, cria dinâmicas. Só conheço dois lados em qualquer lei. O permitido e o proscrito ou condenado. Que uma lei crie alguma dinâmica, não estou a vê-lo em nenhum lado. Que a lei, cria vícios e prisões, parece-me muito mais real. Estar vínculado a uma lei é ter a ordem geral do seu lado. A coisa mais bonita que conheço depois da criação dos rebanhos e pastores é a fundação das leis. Em rebanho, só se funciona em hierarquia e não existe qualquer outra possibilidade, senão dá em turba à solta, insurrecta e desvairada por ter perdido os seus ídolos, para os quais, foi sempre expressamente treinada. A lei é justa para isso, mas não cria justiça alguma e só um vesgo não o conceberia. Ahahaha...A única coisa que sempre me resta é a fabulosa ironia e essa, não se acumula, vive-se dia-a-dia.» [noético-02/01/2014]
Alguns ainda acreditam que a lei dinamiza, cria dinâmicas. Só conheço dois lados em qualquer lei. O permitido e o proscrito ou condenado. Que uma lei crie alguma dinâmica, não estou a vê-lo em nenhum lado. Que a lei, cria vícios e prisões, parece-me muito mais real. Estar vínculado a uma lei é ter a ordem geral do seu lado. A coisa mais bonita que conheço depois da criação dos rebanhos e pastores é a fundação das leis. Em rebanho, só se funciona em hierarquia e não existe qualquer outra possibilidade, senão dá em turba à solta, insurrecta e desvairada por ter perdido os seus ídolos, para os quais, foi sempre expressamente treinada. A lei é justa para isso, mas não cria justiça alguma e só um vesgo não o conceberia. Ahahaha...A única coisa que sempre me resta é a fabulosa ironia e essa, não se acumula, vive-se dia-a-dia.» [noético-02/01/2014]
ESTOU FARTO DE OUVIR E LER DISPARATES
«Estou saturado de ouvir e ler disparates, venham eles de pessoas de cultura ou não. Os sentimentos não devem ser simplificados e reduzidos a dois extremos opostos,
como serem considerados apenas como negativos ou positivos. Em certa
medida ter sentimentos considerados negativos pode revelar-se positivo
em determinadas circunstâncias e vice-versa. A literatura está recheada
de autores que pensam dessa forma simplista e redutora. Nem sequer a
sugestão de que se deve abdicar de certos sentimentos é digna de
mérito. Uma vida de menor desgaste pode nada ter a ver com o
abdicar de certos sentimentos. Talvez uma vida mais simples e despojada
de bugigangas materiais compense mais do que simplesmente pensar em excluir
sentimentos naturais em qualquer ser humano. Pessoas que normalmente apenas toleram os ditos
sentimentos positivos dos outros revelam-se extremamente egoistas nessa
atitude de rejeição de tudo o que possa interferir com elas. São
normalmente pessoas com muito fraca autoestima.» [noético-01/01/2014]
EM BUSCA DO SENTIDO PERDIDO OU A PERDIÇÃO DO SENTIDO ?
«O desespero dá nisto. Uma desenfreada procura de algo por que viver
que chega a parecer confrangedor, paranóico, histérico e senil. Por que
não aceitar antes a vida ainda que não se lhe descubra qualquer sentido?
Certamente os homens infernizar-se-iam mutuamente talvez muito menos e
não provocariam as calamidades humanas de que todos somos
simultaneamente espectadores e responsáveis! Frenesim para isto? Não,
obrigado! Também não precisamos que mistério algum nos alimente. A não
compreensão ou invisibilidade de algo não tem nada de misterioso. O
mistério apenas alimenta a credulice e a superstição.»
[noético-01/01/2014]
EM BUSCA DO SENTIDO POLÍTICO...
«Fala-se muito de politiquice por aqui e por ali. Fala-se também muito
da 'causa pública' e do amor que se lhe deve dedicar a ela. Mas, quando
milhões estão mais bem informados e interessados num programa de
televisão, do género que Orwell antevia, do que propriamente na luta pelo interesse comum, pergunto-me
várias questões: Existirão causas verdadeiramente públicas? Existe algum
colectivo que se possa chamar cidade, país ou nação? Se não me revejo
em nenhuma dessas inúmeras forças sociais, culturais, políticas e
económicas, será sensato abraçar uma abstração como 'a coisa pública',
'a causa pública' ou 'o colectivo/os'? Francamente, penso e sinto que
não, pois, não me revejo em meras conjecturas teóricas desprovidas de
qualquer realidade.» [noético-02/01/2014]
sábado, 21 de dezembro de 2013
O REGADOR DO AMOR
«O que alimenta o amor não é a vontade que falta muitas vezes. Por
questões de interesse ou de vontade mantem-se uma prisão a funcionar
muitas vezes. A separação e o divórcio não são dois corvos agoirentos.
São duas soluções humanas, muitas vezes meritórias e quase sempre
benignas mas que estão fora do alcance de qualquer deus. O amor? Esse...É
uma carta fechada. Pode durar apenas, o tempo de se recuperar da
surpresa. Se o amor dependesse da vontade estaríamos tramados, como quase
sempre o estamos noutros capítulos da nossa vida. A tenacidade pode ser
uma virtude como igualmente o nosso pior defeito. Mas isso não é amor. O
verdadeiro amor vive mais da compreensão e da abnegação do que do regador de
qualquer pseudo-jardineiro de corações. Mas, o amor tem uma coisa boa.
Não é eterno, nem é dever, nem é obrigação. É bem querer sem mais
rodeios e pode não durar mais que uma madrugada ou prolongar-se, até, uma vida inteira.»
[noético-20/12/2013]
ODEIO O MEU ANIVERSÁRIO
«Odeio o meu aniversário. Não por
que tenha receio de envelhecer. É claro que qualquer psiquiatra de olho apurado
diria, de imediato, se o diz, é por que é importante para si, tanto que o
menciona. Mas, deixemos esses especialistas pensarem o que quiserem e
atribuírem a importância que os manuais pelos quais aprenderam assim lhes
ensinaram. Claro que não tem mal, nem bem, um aniversário. Sou ateu, penso que
sobre o bem e o mal não tenho que me pronunciar. Muitos dirão, que grande
disparate. Apenas lhes responderei para pensarem o que quiserem. A sua verdade
não é a minha, nem tem de ser. Sinto que este é o dia ideal para o passar
inebriado, alheio a elogios e gente que se lembra de nós. Os amigos, pretendem,
cheios de boas intenções, homenagear-nos. Os indiferentes acham piada por que
se lembram da data em que são eles os protagonistas. Odeio, portanto,
protagonismos. Odeio simplesmente o disparate de celebrar esta data. Só se
nasce uma vez, num dia, o tal, que já foi. Não se nasce em mais nenhum.
Acabamos por ter que celebrar o que os outros celebram, diz-se, por respeito,
por amor, por amizade, mas, tudo, não passa de um embuste. Mas nós queremos
festa, pensarão. E se o aniversariante não o quiser? E ainda chamam eles a isto
amor, amizade e outras quejandas coisas, ditas, bonitas. Enfim! Se não
celebramos com eles, ou antes, se não lhes damos uma oportunidade de fuga às
suas tristes vidas, vendo na nossa uma oportunidade de quebrar a rotina e se
entregarem ao deboche amoroso ou amistoso, sentem-se ofendidos e acham-nos as
pessoas mais tristes à face do planeta. Pobres coitados. Como foi possível
chegarem tão baixo na escala do pensamento e serem tão adestrados nos seus
sentimentos? Prefiro quem me chame filho da puta. Estou ciente que a minha mãe
nunca o foi, mas penso que só uma pessoa com mente de chulo consegue acusar
quem realmente o é. Afinal a vida, não é vida nenhuma. Trata-se de uma
representação pautada pelos valores, tradições e fantasias de que nos tornamos
escravos. Somos escravos dos nossos pensamentos quando nos entregamos a eles.
Não. Não temo dizer isto e muito mais, se necessário. Choque ou não choque.
Agrade ou não agrade. É-me absolutamente indiferente. O social é um conceito
que deveria ser melhor analisado. Todos o tomam como uma verdade pré-construída,
prontinha a ser usada ou então, talvez, como uma confluência de tradições e
rituais momentâneos, autênticos produtos do supermercado das vaidades, que se
engalanam para fazer festa. Alguns, até, tem medo que a História se desvaneça
por que não se seguem as tradições, os rituais. Perdem-se, sem as pistas pelas
quais parece sempre mais fácil caminhar. Perdemo-nos, acuso-me! Também eu fui
assim ensinado, educado, amestrado, domesticado. Sou um bom rapaz! Ui…Que
magnânima satisfação. Que maravilha! Deverei ficar deslumbrado? Não! Maravilha?
Quando as encontro, gozo-as como qualquer outro. Quando as encontram por mim,
parece que não têm o mesmo gozo. Por que será? Simples. Cada um vive a sua
própria vida e só a si deve as derradeiras explicações, se é que as deve alguma
vez!? Se notarem bem, toda a tradição cristã subjaz a este texto. O êxtase, o
sacrifício, o juízo final, a vida e a morte, etc. A filosofia parece cativa da
metafísica e da teologia. Ainda não a largou. É apenas uma jovem à espera de sair
da toca. Também não é fácil entrar num mundo que já há muito começou e que se
gaba disso mesmo. Que faz jus a uma História, como se realmente existisse algum
parentesco com os mortos e uma responsabilidade futura com outros que hão de
vir à face do Planeta. Esta lógica da continuidade é aviltante. A moral, sempre
o recomendou, sempre dela falou. Os homens seguem-na de mentes fechadas, sem
sequer refletirem. Sigamos os trilhos, limitam-se a dizer para consigo
próprios. Quando reflectem, fazem-no sempre dentro das suas molduras habituais,
costumeiras consumidos pelas teias de aranha do tempo, como se não existissem
diferentes tempos, entre os quais, os de cada um, bem mais significativos e bem
mais reais que qualquer ciência, metafísica, teologia ou filosofia. Surgem-me
espectros de gente viva a toda a hora. Perdoa-se-lhes a outrora inocência, a
actual ignorância, mas sobretudo a ausência de coragem de se exporem como são e
de se arriscarem a não correr risco nenhum uma vez que é a si que descobrem. E
viver com isso, com o que se é, parece tão desconfortável. Não. Não é mesmo
nada disso. É muito pior nunca se ter sido do que ter uma filosofia de cartilha
prontinha a desbobinar da boca para fora. Mas alguém nunca terá sido ? Têm
razão. Existe uma cartilha, um livro, um logos, um centro, uma pauta. E muitos
são fieis a ela e assim toleram melhor, dizem, as agruras da vida. Vivem
segundo personagens e procurando ser as personagens de um Livro, como se de um
ato animista se tratasse. Ah, já agora os psicólogos colocam o animismo no fim
da linha, na infância. Caramba! Mas, então, a infância não é sagrada? Parece
que se diz dela o que se quer, conforme convém. Ora é boa, ora é cruel, ora é
inocente, ora é perversa. As crianças servem para todas estas formas de ambivalência
dos pseudo-adultos dos sete costados. Não interessa se a minha razão impera. É
apenas uma razão que se rebela contra o império a que chamam da razão. E no
entanto, não se consegue fugir ao racional, a parte de nós que ajuiza, analisa,
julga, valoriza, critica. Que belo instrumento de cinzelar o sílex da nossa
vida. Que maravilha de bisturi simbólico que escarafuncha tudo e tudo remexe
como se fosse único, senhor e proprietário. Quem nos terá ensinado esta
parvoíce toda? Somos vivos por que usamos instrumentos? Lamento. Estou em
profundo desacordo. Também eu sei partir a pedra, contar os números, esse
novíssimo modelo da tecnologia mental moderna. Mas sabem uma coisa, essa
história parece mal contada. E sabem porquê ? Por que atrás de um número apenas
pode existir outro número. Ou seja, a matemática, peca pela circularidade.
Ahahah…Não me vou alongar mais. O resto, espero que reste muito a todos. A
mim não resta nada, pois não sou
matemático e não costumo usar essa linguagem. Não divido, nem subtraio, não
adiciono, nem conto. Divirtam-se, como eu me diverti a escrever este texto de
parabéns a ninguém.» [noético-21/12/2013]
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
VIVER
![]() |
| npa@2013 |
«Sinto este prazer infantil de te admirar. É como se o refluxo do tempo
me fizesse retornar a esta mesma praia em que as horas se enfeitiçaram
pelos raios de Sol. Sinto este respirar de coisas vivas...Viver é
isto...Sente-se como se fosse um espaço tingido por aguarelas que
escorrem, como a frescura das imagens, soltando-se dos teus
cabelos...Não sei o que é a beleza. Nunca soube o que era belo, e, no
entanto, achei sempre a beleza, em cada seixo, em cada folha, em cada
nuvem... O meu olhar timidamente respira, respira...Não é fôlego
nenhum...O belo não se agarra...É algo que nos cerca, que nos desliga e
apaixona...É como o ar passar a ter sabor, como descobrir uma pedra por
detrás da transparência da água que brota de uma nascente. E nesse
preciso instante, passado e futuro fundem-se num ponto sem referência,
unindo-se num plano sem espectador. Traços de amarelo misturam-se com
flocos de vermelho sob a orbe azul celeste, e toda esta alva tela se
enche de cor...Respira...Sente...Aprecia...Avança e recua. Esta, é a
viagem. Vive.»
[noético-03/11/2013]
[noético-03/11/2013]
UM MUNDO DE BICHAROCOS
![]() |
«Tenho a nítida sensação de que muitos destes tipos não dormem bem. Sou
um alien observando do espaço. A artificial luz só se aguenta através de
antidepressivos, as «benze» e «dia», «Zé», «pinas», todas. Força nisso,
caramelos! Força! Ingiram biliões de sonoríferos para não tomarem em
conta o que vos sustém vivos enquanto tratam da vossa vidinha "pessoal".
Espero que nunca acordem. Assim, deixarão de temer a noite, as trevas, o
vosso outro lado, o poente! Durmam criancinhas, durmam...O Natal está
para aí a chegar para mais uma festinha de dervishes...Como é que a
Terra possui criaturas tão mesquinhas ?...»
[noético-05/12/2013]
Photo: ESA astronaut Luca Parmitano took this photo of the Mediterranean and the star cluster Pleiades as seen from the International Space Station in this cool space wallpaper. "The Mediterranean, the Pleiades and a storm in the distance," he Tweeted on July 29, 2013.
[noético-05/12/2013]
Photo: ESA astronaut Luca Parmitano took this photo of the Mediterranean and the star cluster Pleiades as seen from the International Space Station in this cool space wallpaper. "The Mediterranean, the Pleiades and a storm in the distance," he Tweeted on July 29, 2013.
15 MINUTOS DE DEVANEIO...
"And as the Wizard watered the beautiful woman she
grew branches and leaves out of her head."
grew branches and leaves out of her head."
«Dali, avisou-nos disto tudo. Vivemos numa era em que o excêntrico é o
luminoso. Há que dar oportunidade a qualquer aberração. Sem limite...Só
há este limite de não se limitar. Vale tudo...A arte de Dali já
ironizava com isto tudo, que hoje, surge como exótico, surreal,
desarrumado, seja o que for...O Desalinho da loucura/cultura
individualista. Dali, já o sentia e exprimia. O génio antecipava-se.
Agora só resta transplantar os cornos de um boi para uma galinha e
expô-la num órgão de comunicação social...Belo, dirão! Genial, outros,
exultarão. Mas, de nada disso se trata. Há muito que a arte se adianta
como vanguarda da crítica, do poder e do viver. Há muito que Dali
poderia ter sido esquecido se ele não dominasse a vidência da arte do
tempo. Eis, pois aqui, Dali surreal e irónico, diria antes, icónico,
satirizando a ciclicidade dos pseudo-renascimentos humanos. Ou deveria
antes dizer, jocozamente parodiando a histeria das reencarnações ?...E
tudo com um toque de moderna jardinagem.»
[noético-05/12/2013]
[noético-05/12/2013]
CALÇO OU DESCALÇO ?
![]() | ||||||||||||||||||||||
| Vincent van Gogh, "Un paio di scarpe" |
«Tenho a impressão que estas botas me servem. Não temo a miséria, pois, o
que é isso da miséria ?...Também não me condôo se um dia descobrir o
meu pé descalço. Sonhar com sapatos de veludo não faz parte da minha
marcha. A distinção, rico ou pobre tem provocado maior desumanidade do
que fraternidade. Van Gogh pintou um objecto comum, assim, como o é, a
vida de cada um. Pensar em miséria faz-me avançar até à morte, facto,
perante o qual, somos todos miseráveis. Chegaremos todos lá, descalços e
desnudos. Claro, que nos podem cobrir de mil e um artifícios, como a
arte e manha humanas tão bem sabem fazer, para disfarçar a solenidade do
momento... Tenho a impressão de que este é o meu calçado... Mas, tantas
vezes prefiro andar descalço que, por vezes, já nem sinto a necessidade
dele. Não preciso de botas para dormir. Não faço amor de botas. Não me
banho com botas. Até fico sem calçado nas palavras...»
[noético-04/12/2013]
[noético-04/12/2013]
sábado, 30 de novembro de 2013
ESTA DESCRENÇA NO HUMANO JÁ CHATEIA !
![]() |
| Ian Gamache - Going Inside |
«O
Ateísmo é a descrença em qualquer deus. Mais, é a assunção de que nada
tem a ver com qualquer ser superior. Nem deus, nem papa, ayatolah,
guru, rabino, etc. Ateísmo é a descrença na existência de seja o que for
de sobrenatural, no natural. É por isso que não sou panteísta sequer.
Não creio em nada dessas teorias, pregadas por homens-hienas, que
proclamam, os escravos na Terra e os salvadores noutro
mundo, paradisíaco, ou que, para amarem este mundo e os homens, tem de
divinizar outro, ou tudo quanto os rodeia. A questão que lhes coloco é a
seguinte; quando é que começam a acreditar no Homem ?... Já chega da
vossa descrença ou da necessidade de uma força ou energia protectora,
vinda sempre, do invisível presente... Já chega de alucinação. E
desenganem-se todos esses tolos que, dizem que sem tudo isso, não se
pode desejar o bem. Desenganem-se aqueles que afirmam, que sem se crer
em deus, se é mais pobre. Por crer numa fantasia é-se mais rico ? Mas é
ser-se rico que se pretende ? Para onde se levará essa riqueza toda ? A
falsidade e o despeito falam pela boca de todos esses promotores, desse
sempre além fronteiras, desse nada, que adultera toda a condição
humana.» [noético-28/11/2013]
A POESIA SEM PALAVRAS
![]() |
| Angel Gherghelas |
[noético-30/11/2013]
DA DISCUSSÃO RARAMENTE NASCE A LUZ
«Existe
um mito muito difundido cuja expressão é a seguinte: 'Da discussão
nasce a luz'. Pois bem, existem múltiplos casos em que discutir não
conduz a nada, nem sequer à eliminação dos argumentos de cada
interveniente. E existem tantas, tantas situações, em que se discute até
aos limites do absurdo, sem se encontrar qualquer partícula de luz...
Diz-se então, cada elemento da discussão, pode pelo menos testar os seus
argumentos e compreender que, afinal, não existe contraditório lógico e
consistente que os derrube. Foi então, testado, e cresceu em cada um, a sua
convicção. E se todos os convictos estiverem profundamente errados ? É o
número que valida esses argumentos ? É a qualidade de resolver
problemas que decide em última instância ? A vida é apenas uma questão
de resolução de problemas ou de testar teses ? Pois eu, penso que não.
Nos sentimentos, nas emoções e nos pensamentos, estamos sempre prontos a
tomar a parte pelo todo e o todo pela parte. É falacioso. No entanto, é
o que impera. Por vezes a urgência liquida qualquer bom argumento, ou
solução, fora de tempo. Pois é, existe o tempo. Mas, vejamos antes o
lado positivo da questão... Sem discussão não é possível chegar a uma boa
solução. Verdade ? Falso! Nem sequer me vou estender a demonstar o quão
errado mais esta sentença é. Este não é o lugar...Ah! Também existe o
lugar! Pois é...E muito mais haverá a dizer sobre isto. Não irei
esgotar, nem sequer o conseguiria, mas, duvido que mesmo todos juntos, o
conseguissemos esgotar, apesar, da paridade ou imparidade dos nossos
argumentos.» [noético-30/11/2013]
JOY DE VIVRE
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| Foto: npa@2013 - Sintra - Portugal |
[noético-30/11/2013]
TRANSMIGRAÇÃO
![]() |
| Foto: Porto - [AEP] |
«Como posso eu dar-te, o que não sei de mim? Tu, pedes-me, e eu rasgo-me
todo, com violência, numa busca sem fim...Que procuro, não sei ?... Se
for ao encontro da tua minha imagem, acabarei por reconhecer que me
despedaçarei. Por isso, não vou. Não vou, nem encontrarei. Mas, depois,
tu bem o saberás, como o lamentarei... Sair de mim, para ti, é a
loucura. Não posso estar certo de que estou são, mas sigo as batidas
deste meu coração, em alvoroço, possuído pela paixão. Todo o criar é
transgressão, e o sofrer é o imenso deserto da decepção. Não sei por
onde ir, se por aqui, ou antes, se por ali? Andar nisto uma vida inteira
é uma agonia. Nem tu sabes, se bem, eu te faria. Por isso, não ligues.
Não te exponhas. Guarda em silêncio a vida que a mim, te traz, e eu
guardarei em mim, a vida que a ti, me leva.» [noético-30/11/2013]
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
EM PÉ DE GUERRA
«Estes estupores que nos governam, são giros a valer! Provas para professores contratados (no desemprego, ou até já sem trabalho, casa, subsídio, etc.) pagas pelos próprios, são um verdadeiro convite a alimentar este monstro, que nos devora a cada minuto com manigâncias, esquemas corruptos, taxas, impostos e outras artes de extorquir, arrancando-nos a ferro e fogo qualquer vintém ganho com suor, trabalho ou imaginação árdua. Então por que é que os professores do quadro não prestam provas também ? O princípio da igualdade, consagrado na Constituição ? Não! São igualmente um convite à violência. Sim! Um convite à VIOLÊNCIA!...Perder a calma ? Estado de Direito ? Mas qual Estado de Direito ? Desobediência civil, já!!!...Querem saber ?... Durante anos cidadãos que adquiriram casas junto à orla costeira pagaram tudo o que tinham a pagar de licenças, de taxas, de impostos municipais e por aí fora. Estava e está tudo legal. Até existem cadernetas prediais, registos nas conservatórias, etc. A Lei, diz-se, neste País, governado por MALANDROS, que é ou deve ser universal. Pois é...Isso significa que é igual para todos. Mas será ? Pelos vistos parece que não. Vai entrar em vigor em 2014 uma Lei 54/2005 (notem bem, em 2014) que regula as propriedades localizadas a menos de 50m da orla marítima. O que se exige ? Que os proprietários tenham de provar que as suas propriedades já eram de uso privado antes do ano de 1864. Repito, 1864! Nem ainda a República existia. São as chamadas Leis retroactivas...Mais uns anos e pediam documentos do tempo do terramoto de 1755. Ahahahah. Leis que mudam ao deus dará, 'tendem', como agora está na gíria dizer, pois parece bem, a ser universais...Ahahahah. Desculpem-me, mas isto é, parece-me, uma autêntica brincadeira... Só que a brincadeira tem limites. Pelo menos para mim. O que pode acontecer, se os proprietários não encontrarem a agulha num palheiro ? Acham que vão demolir as casas de toda a orla costeira portuguesa ? Não. Há marinas projectadas, campos de golfe, etc, e com elas a expectativa da chegada de muitos barcos, de gente com muito dinheiro. Seguir-se-lhes-ão, os empreendimentos de luxo, os condomínios para gente rica e as negociatas chorudas. Pois é! É isso mesmo. Por que os proprietários que não o provarem serão expropriados, perdarão o direito de herança ou passarão a pagar rendas ao Estado/Municípios (ainda não é claro). Chega de anormais a brincar com a vida das pessoas. Depois, querem que permaneçamos tranquilamente em casa a ver desfilar um Estado que nada tem de Direito senão a corrupção e o compadrio. Universal ? O caraças!!! E acham que é assim que vamos a algum lado ? Ainda hoje, se fizeram contas aos ganhos com os cortes de pensões que aí estão para chegar e aos ganhos das maiores fortunas (os únicos empreendedores e exportadores deste país, pelos vistos). O saldo ? Meus amigos...Meus amigos...Nem brinquem. Todos já sabemos sobre quem recaem os sacrifícios e em quem eles os (Governantes) nunca tocam, por que foi o dinheiro das grandes empresas que lhes pagou as campanhas eleitorais. Depois, querem que a gente ainda acredite nesta treta de Constituição, nesta miséria de legislação que os cidadãos durante anos cumpriram e cumprem, para que de um dia para outro, uns labregos sem dignidade (pois não merecem outro nome) revoguem tudo? Isto, não é um desabafo! É uma posição política. E cuidado...É um aviso...Claro que é! Um aviso que as leis não são para respeitar por que são os próprios legisladores a desrespeitarem a Lei, conforme lhes é favorável ou não. Por isso, por que havemos nós de respeitá-la ? Para quê levar com estas coisas ? Incitação à violência ? Não! se quiserem também ficar com a minha casa, garanto que não a encontrarão de pé! Querem gente mansa ? Comigo não contem mais!»
[noético-27/11/2013]
[noético-27/11/2013]
UM FARDO CHEIO DE NADA
«Não te sei dizer...Carregas contigo os teus
projectos que parecem mais pesados que o chumbo...Ah!...É a
responsabilidade, essa flecha que parece a espada de Dâmocles, sempre
pendente sobre a tua virtude ética de procurares a perfeição a máxima
eficiência... Compreendo, mas não comungo dessa hóstia (vítima)
misteriosa que te presta socorro por trazer-te alento e te deixa
penar...Oh, como te leio, nesses magníficos e despertos olhos...Nem
imaginas por onde me fazes navegar...E é afinal tudo tão simples. Mas o
tempo intromete-se e pede-te que não te esgotes e que não te entregues
ao momento...E, transforma-se em solenidade, o adiar... É óbvio que não
se vive apenas do momento, senão o que seria dos teus projectos ? Um
projecto é um objectivo a cumprir, uma missão, uma entrega a um processo
de edificar...Sei de tudo isso. O que me cansa é que se perde a vida
nisso tudo...E não existe nenhum depois... Os prémios são tão vãos que
por vezes até me apetece implorar-te para parares...A simples palavra
prémio arrepia-me, causa-me náuseas! Não se vive para prémios ou vive-se
? Se, se vive, então eu não vivo para o viver do mesmo modo. Houve
tempo em que lamentaria tudo isso. Hoje, já quase nada me causa honra ou
remorso. Mas, continuo sem te entender, ou faço por isso...Procuro não
te entender para não me fascinar por tão radical empreendimento que tu
levas avante como se de tudo se tratasse. Há muito que todos os meus
sonhos faliram. Não deixei de os ter...Simplesmente deixei de os
imaginar...E vejo-te ou rejubilante ou falida a horas diferentes do dia,
do mês, da semana, do ano...E queres que te ame como se de uma maré se
tratasse ?...Não, não tomo banhos nesse mar.» [noético-26/11/2013]
THE KEY OR NOT THE KEY ?
«If a
key opens one door you'll never think that it will open all the doors.
If that key opens also a lot of other doors you'll soon reach to a point
where you begin to wonder if it won't open any door. Moved by the
sudden magical power of that key it is easy to fall in a big mistake. To
consider that that key is universal. Induction leads us to these kind
of conjectures. Though it's natural and common it may reveal to be a
wrong way to take. So easiness or the raisor of Ockham don't result to
everything we would like to. Keep it in mind.» [noético-21/11/2013]
A FUGA DA IMAGEM
«Quem
eu amo não me ama, parece-se com a minha imagem do espelho que não se
revê em mim. É engraçada esta ideia do outro de nós que nos fita sem nos
reconhecer. Poderia ser uma catástrofe mas acaba por ser curioso. De um
lado há riso, do outro, dor. A meio, as meias faces diluem-se num plano
de fuga que se escapa à admiração ou repulsão mútua. Se este espelho se
partir não se passará a viver apenas do azar...Amar o que queremos que
seja apenas nos torna mais egoístas e alheios à diferença que medra em
todos nós.» [noético-27/11/2013]
sábado, 23 de novembro de 2013
SE VIVESSES SÓ DE IMAGENS
«Quando perderes, ou se perderes a visão, as palavras, talvez passem a ter outras dimensões...» [noético-23/11/2013]
A MINHA LISTA DE AGRADECIMENTOS
«Já pensaste no alcance destas palavras?...Muito obrigado! A quem tu agradecerias?...Eu, já fiz esse exercício.»[noético-23/11/2013]
O OLHO QUE CHORA
«A hora de chorar há-de chegar. Comovidos, parecer-nos-emos com anjos
convertidos à humana condição que renegamos, embora todos abertamente o
confessemos ser. Deve ser por isso que eu chorarei só por um olho. O
outro, coitado, há muito que cegou! É também aquele que me preocupo mais
em preservar...» [noético-23/11/2013]
O CIENTISTA DESGOVERNADO
«O cientista desgovernado poderia começar por ser um óptimo título de um
romance. Na realidade, poucos ou quase nenhum cientista se deixa tomar
pelo seu entusiasmo sem tomar em consideração a tábua dos mandamentos da
investigação científica. Os cânones são para seguir e respeitar. E,
muito bem. Mas, imaginemos que todos seguem esse percurso e que a
natureza não funciona segundo esses procedimentos discutidos e
sedimentados ao longo dos séculos, e resolve mostrar mais uma diferente
forma de ser desconhecida até hoje. Muito gratos ficariam aqueles para
quem a imediata resposta seria, a de que se trataria de mais um
desígnio de Deus. Infelizmente poder-se-ia ripostar-lhes que, a ser
assim de facto, então Deus nunca tinha explicado nada aos homens
sapientes e se limitaria a brincar com a curiosidade e vida humanas
como se de um brinquedo se tratasse. Um ser muito jocoso para não dizer
impiedoso. Na verdade, Deus nunca assistiu ninguém nas suas vidas,
explicações ou previsões. Deve temer ser humano, e isso, nos basta. Não
precisamos de Deus para nada, nem mesmo, para nos enganarmos em termos
de ciência. Deveria constituir para nós todos orgulho que os cientistas
se enganem, que caminhem à deriva num Universo, que é desgovernado. A
menos que Deus nos ande apenas a pregar partidas. Neste cenário o título
do romance teria toda a sua pertinência. O que achas?...»
[noético-23/11/2013]
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
A VIRTUDE DOS INSENSATOS
«Por
momentos, estremeci. Julguei-me senhor da descoberta... Fugitivo da
incerteza que procurava habitar-me. Não era o tempo que se escondia nos
quadros desertos que pintava. A luz, criava contornos e bonecos que eu
recortava como figuras de papel, feliz com o domínio das minhas mãos
calejadas pela frenética voracidade de viver que não me abandonava. As
palavras atapetavam o caminho, semeadas como
relva entre jazidas que a chuva sorvia nas enxurradas. Sonhava com
poetas todos os dias. Via na poesia o alcance lacustre das paliçadas
erigidas de encontro aos astros. Poemas eram histórias. Lugares
habitados nos interstícios dos versos. E compreendia, reflectia e
analisava. Sentia e imaginava que com aquelas minúsculas pedras criava. A
solidão era estar contigo e só sobrar o silêncio numa guerra surda de
almas, que ao embaterem nas folhas secas ecoavam próximas como peúgadas.
Ruídos, silêncios, murmúrios de maquinaria numa azáfama fabril
produtora de espectros. Oh, como eu morria!...Morria enfastiado da orgia
que os sentidos plagiavam da natureza...Vivia suspenso por um verso da
tua pena...Vivia com a vida que me abandonava. E a minha alma, essa
fantasia diletante que jamais me esmorecia, fazia. Fazia, fazia, fazia
suspirando por vitórias e bravatas que despedaçavam os sonhos em utopias
e quimeras. Ah... A alma é nada, mas veste-se com as cores das palavras
coroando-se com a virtude dos insensatos. Mas...Depois disso, não há
mais nada. Ou haverá ?...» [noético-26/10/2013]
NÃO DIZENDO NADA...
«Escarnecemos
do silêncio. Achamo-lo vazio, insignificante, inoportuno, quase sempre
indesejável. Mas, não poderíamos estar mais equivocados. Pensamos sempre
que as palavras é que nos servirão de redenção. Que todos os desertos
têm de ser povoados. Mas, encontramo-nos de novo enganados. Não sei o
que nos move a tal...Muitas razões valeriam para o abafar. Certo é, que
por momentos também o consideramos absolutamente necessário,
indispensável. E eu tenho tantos silêncios para te dizer que nunca
caberiam em quaisquer palavras...Nenhuma matemática falaria pelo não
enunciável. Não sei se me entendes?» [noético-30/10/2013]
AMOR DE ALGODÃO
«Pouco
me importa o que pensas ou sentes se dirigidos a mim. Amar-te em nada
depende disso. Amar-me também não. Temos ainda a noção errada de que
amar é apenas cuidar, fazer crescer, devotar atenção...E já não somos
pequeninos embora adoremos representá-lo como verdadeiros palhaços
chorões no meio de um circo. Hoje, agora, não tenho, não devo, não tenho
que dizer nem não, nem sim, nem sequer o talvez, que não sinto. Tu
vês-te assim livre das minhas pedras e areias desérticas e eu das tuas
pétalas e espinhos. Plenos da distância dos afectos,
espreguiçar-nos-emos ao amanhecer de olhos tingidos pelo algodão dos
sonhos.»
[noético-02/11/2013]
TRANSFIGURAÇÃO
O CERCO DO AMOR
«Não
estou arrependido de nenhum Amor. Também não posso sentir remorsos de
quando não existiu Amor, por que em verdade, se não chegou a haver Amor,
nada há para sentir desse modo. Os arrependimentos só atrapalham.
Queremos seguir, caminhar diferente e, caímos nessa cilada. Por que será
que temos que nos certificar tantas vezes dos nossos passos ? Por que
os temos sempre que classificar, qualificar
ou o inverso ? O Amor para muitos é uma invenção quase literária, mas
para quase todos é uma representação simbólica do sentir e agir de certo
modo, aglutinado num conceito afim de ser comunicável e/ou
justificável. Sim. Justificável. Na verdade adoramos relatar os nossos
Amores ainda que suprimindo os detalhes. Sentimos que atingidos pela
cupidez, entramos ou estamos ou estaremos em estado de graça. O grande
Amor é o incontido, o inenarrável, o inexprimível, o irresumível. O
grande, nestes casos é o que vivifica e transborda. Alguns preferem
dizer que os transcende. Todas as possessões reflectem esta ideia. O que
nos possui parece transcender-nos, mas, apenas por que temos todo o
nosso ser ocupado com esse sentimento. Incapazes de sair desse estado de
fechamento que nos surge como forma de abertura para qualquer lado,
todos os nossos caminhos estão cercados!»
[noético-18/11/2013]
BOTH SIDES NOW
«Não me consta que só os prazeres momentâneos causem inconvenientes. E
também não me consta que o sofrimento seja um mal ou a amputação do
existir ou sequer o causador de incerteza num destino que todos sabemos
ser certo. Viver sem sofrer seria o
equivalente a estar morto. Relativizar o sofrimento e o prazer,
reflectindo, parece ser a proposta do Camilo. Mas será isso exequível ? A
temperança é uma dessas formas possíveis de viver de acordo com certas
sensibilidades que por não serem as únicas, não se podem arvorar
enquanto tal. Viver na «mediana» é uma proposta para a existência.
Existem outras que apontam para a «radicalidade» e ainda outras tantas
mais. No entanto, parece-me que nenhuma delas leva a melhor quando se
trata de adquirir um passaporte para a felicidade.»
[noético-19/11/2013]
OS VILÕES E OS SENHORES
«As
democracias modernas são ainda muito jovens. Os credos são já anciãos
mas as evangelizações e as cruzadas prosseguem. Papados, reinados,
ducados e condados continuam a proliferar como outrora embora com outros
nomes. A plebe continua a ser a plebe, não decide nada quando se joga
ao jogo e no tabuleiro dos cavaleiros-guerreiros-religios os-banqueiros. A separação de poderes é um logro para os que
ficam na base da pirâmide a esperar pelo céu e a sonhar com castelos e
cavalos a motor...Esta Europa cheira a môfo e os seus cruzados levantam
uma poeirada enorme debaixo dos cascos das suas montadas. Abram alas e
deixem passar,acontecer... Cada Estado Nação é um burgo. Avé César. E que me perdoem os Romanos... Avé
queridos Duques e Condes de Bruxelas. Avé Papado de Roma. Que se
conspurque e confunda a plebe. Mande-se os vilões trabalhar pois deles
será o reino dos céus... A república é um embuste e todo este estado de
coisas a que se chegou parece um romance quixotesco, uma verdadeira
novela de cavalaria fotocopiada de um passado ainda não tão distante
como alguns querem fazer parecer. O medieval está vivo e bem vivo, por
todo o lado.»
[noético-20/11/2013]
[noético-20/11/2013]
A RANHURA
«Por
agora vou-me remeter à vida sem complicações metafísicas ou folclores de
máscara. A carne e o osso é que são a estrutura que me tornam bípede. A
mente consciente é apenas uma ínfima partícula no cosmos do meu corpo
que passa ao lado de quase tudo, um minúsculo postigo por onde se
entrevêem apenas contidos rasgos de um horizonte muito mais vasto.»
[noético-20/11/2013]
terça-feira, 22 de outubro de 2013
IDEIAS PEREGRINAS
«Por
muitos países e lugares deste mundo uma ideia comum ganha terreno.
Trata-se da ideia peregrina de que se é o que se faz. De facto todos nós
concordamos que somos um pouco do que fazemos também. Mas por que é que
não somos na totalidade ? Já experimentaram perguntar a uma pessoa
desempregada o que ela é se não faz nada? Mas é claro que ela faz muitas
mais coisas do que a simples profissão que não
tem. E mantem na mesma a sua dignidade enquanto pessoa que tem
inteligência, emoções, gostos próprios, ideias políticas, crenças,
humores, vontade autónoma, interesses e muito mais. Portanto, nem a
pessoa é a profissão nem é a profissão que confere dignidade às pessoas,
nem as pessoas deixam de ser gente humana e capaz apenas por que não
têm trabalho. A propósito...Sabes a partir de quê me surgiram estas
ideias? Eu conto-te. Foi quando conheci recentemente um jovem cirurgião
alemão de trinta anos e que se sentia oprimido porque acreditava que só
era gente enquanto trabalhava. E assim vai a Europa dos idiotas meu
caro!»
[noético-30/09/2013]
[noético-30/09/2013]
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